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ENTREVISTA

Fui vendida por R$35 como escrava sexual pelo Estado Islâmico

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publicado em 27/12/2014 às 14h15

 A comunidade yazidi, uma minoria religiosa no Iraque, afirma que pelo menos 3,5 mil mulheres e crianças ainda estão sob o domínio do grupo autodenominado Estado Islâmico. Muitas delas têm sido utilizadas como "escravas sexuais" e apenas algumas poucas conseguiram escapar e agora contam suas aterrorizantes histórias.

Em um dia de agosto, Hannan acordou e se deparou com sua família arrumando as malas com pressa. Ela foi pega de surpresa: ainda não tinha se dado conta que os jihadistas do Estado Islâmico estavam tão perto.

Do lado de fora, a rua principal de sua cidade natal, Sinjar, estava lotada. A família dela se juntou a outros yazidis correndo e chorando, enquanto balas voavam sobre suas cabeças, diz ela.

A chuva vai castigando a barraca onde estamos abrigados enquanto ela, nervosa, conta sua história torcendo os dedos.
Hannan não é seu nome verdadeiro. Nenhuma das ex-prisioneiras poderia suportar ser identificada. Hannan tem 18 anos e sonha ser enfermeira, um futuro que quase foi levado embora pelo Estado Islâmico.

A jovem conta que os jihadistas bloquearam as estradas de Sinjar com suas caminhonetes. Eles separaram mulheres e meninas.

"Eles eram 20, com barbas grandes e armas. Eles disseram: ‘Vocês vão vir para Mosul’. Nós recusamos. Eles nos bateram e nos empurraram para os carros."

Ela, então, foi levada com as outras mulheres para um ginásio esportivo e, depois de algumas semanas, todas foram para um salão de casamento. Em um dos lugares, havia um total de 200 mulheres e meninas. Era como se fosse um mercado de escravas. Os combatentes poderiam vir e escolher quem quisessem.

"Nós não ousávamos olhar na cara deles. Tínhamos muito medo. Uma menina voltou depois de ter sido usada como escrava sexual e nos contou tudo. Depois disso, o Estado Islâmico não permitia que ninguém voltasse."

"Eles atiravam para nos assustar. Eles pegavam quem quisessem à força. Estávamos chorando o tempo todo. Queríamos nos matar, mas não sabíamos como."

Uma menina até conseguiu cometer suicídio, segundo Hannan.

"Ela cortou os pulsos. Eles não nos deixaram ajudá-la. Colocaram a gente num quarto e trancaram a porta. Ela morreu e eles disseram: ‘Não importa, só precisamos jogar o corpo em algum lugar.’"

Eles mudavam de lugar o tempo todo. Em um determinado momento, avistaram alguns dos seus homens à distância. Eles foram obrigados a raspar o bigode – os jihadistas consideram o bigode "anti-islâmico".

"Nossos homens estavam rezando cinco vezes por dia para tentar salvar suas famílias", Hannan conta. "O Estado Islâmico nos disse: ‘Se não seguirem o Islã, vamos matar todos vocês.’"

As meninas mais novas eram as primeiras a serem raptadas, segundo ela, e muitas vezes eram levadas para a cidade síria de Raqqa, ‘a capital do Estado Islâmico’. Finalmente, chegou sua vez de ir.

"Eles nos disseram: ‘Vamos levar vocês para suas famílias primeiro. Esta será a última vez que vocês vão vê-los.’"

"Nós chorávamos muito, segurávamos as mãos umas das outras e chorávamos. Nós perguntamos aos combatentes do Estado Islâmico: ‘Por que estão fazendo isso com a gente?’, e eles nos batiam com um pedaço de pau."

Elas não foram levadas para suas famílias, mas para uma casa que elas entenderam ser um ponto de parada. Sete meninas foram colocadas em um quarto. Algumas foram retiradas para serem abusadas sexualmente e depois voltaram. Havia homens armados do lado de fora. Fugir dali era algo que parecia impossível.

Mas havia uma janela de plástico no quarto e, numa noite, elas conseguiram forçar para que ela se abrisse.

"Nós fomos saindo, uma a uma, pela janela. Eu fui a quinta. Eu estava esperando minha prima lá fora. Mas vi uma luz se aproximando. Não poderia esperar mais. Pulei o muro e nós corremos e continuamos correndo. Não conseguimos ajudar o resto."

BBC

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