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Professora Emérita da UFPB e membro da Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba (AFLAP]. E-mail: reginabotto@gmail.com

O amor filial

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publicado em 30/04/2022 às 12h13
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Desde o primeiro dia de vida nasce instintivamente o sentimento próprio chamado de amor filial. O amor prevalece em todos os atos do ser humano. Faz parte do processo de humanização. É genuíno e intrínseco pois dirige todas suas ações. O amor filial reúne afetos que existem entre pais e filhos. É único, puro, incomensurável, inalterável, inabalável e duradouro ao longo dos anos. Sem perder intensidade, se estende a parentes, irmãos, avós e netos. Deve ser cultivado, respeitado e valorizado, factual entre os membros da família unidos por valores inquebrantáveis. Ao longo da vida várias circunstâncias de atitudes provocam condutas negativas até porque as pessoas não são iguais e possuem suas diferenças, causando divergências que dificultam sua convivência.

O amor filial pode ser negligenciado devido às distâncias e desacordos. É o caso de filhos que moram distante há muitos anos, quando ficam esquecidos e não compartilham aniversários, Natais ou datas comemorativas. Os comportamentos não são fáceis e às vezes tornam-se impossíveis. Para cada contexto há uma história, bem como ações e comportamentos diferentes.

Conheci Magdala na antessala de um consultório médico e naquele ambiente começamos a conversar, foi quando descobri que frequentávamos a mesma academia de hidroginástica e iniciamos a partir daí um relacionamento, pois nos encontrávamos sempre na espera das aulas. Nessas ocasiões relatou a história de sua vida, o que muito me comoveu. Nasceu no interior do estado do Rio Grande do Norte, de um casal de agricultores, de cujo consórcio nasceram duas filhas; Magdala e Marilia. Na convivência familiar Magdala achava que sempre era preterida, pois era nítida a preferência da família pela irmã Marilia. Todas as atenções eram dirigidas à filha caçula. Era a mais presenteada, em todos os momentos em que estavam juntas, Marilia era a escolhida. Este comportamento dos pais foi procedido desde crianças. O clima gerado por seus pais com esses gestos a deixavam muito triste.

Magdala casou-se com um militar e foi morar distante de sua cidade. Sempre estava mudando de lugar, devido às regras militares, ora num estado, ora noutro, o que gerava instabilidade, que não permitia criar laços e vínculos sólidos de amizade. Esta situação impediu de continuar os estudos. Para compensar, Magdala fez durante essa caminhada vários cursos de confecção de artesanato, bijuterias, pintura e assim conseguia vender e arrecadar dinheiro para vestir-se e comprar sua maquiagem. Ressentia-se do apoio de sua mãe que durante esse tempo em que esteve fora nunca recebeu sua visita. Teve duas filhas. Sentia-se isolada, sozinha. Enquanto à outra, que morava com os pais no interior, era dispensada toda deferência, circunstância que a machucava bastante.

Mesmo assim, manteve o amor aos pais. Tudo que poderia torná-los felizes era realizado. Promoveu várias melhorias na casa do interior, deixando-a confortável, em busca do bem estar dos genitores. Isto fazia contando com a ajuda de seu esposo. Foi quando recebeu a notícia do óbito súbito da mãe. A morte, ocorrida dessa maneira, a deixou inconsolável, pois em sua mente havia sempre a ideia de reaproximação e não havia mais tempo para retomar a situação que ficou inacabada, incompleta, o que a faz chorar a sua perda até hoje, como não tivesse se despregado e os laços continuassem. Uma coisa incrível. Entrou em depressão e hoje continua chorando como se a morte fosse recente. E assim vai administrando sua vida.

Com o passar do tempo veio a doença do pai. A irmã, não mais morava com o pai, era cabeleireira e trabalhava no salão construído pelos pais, em frente à casa, razão argumentada para não ter trabalho com o pai, que continuou em sua casa morando sozinho. Era bem relacionado e estimado pelos vizinhos e moradores do seu lugarejo, conhecidos de muitos anos. Com hábitos interioranos, acordava cedo e logo ao amanhecer cumprimentava a todos, dando bom dia! Uma vez ou outra tomava um cafezinho com o vizinho, com muita camaradagem, de modo que sua rotina era preenchida. Um dia pela manhã sentiram sua falta.  Às 6;30 ainda não aparecera para a caminhada, como de costume. Os amigos, preocupados, resolveram chamá-lo, mas como não respondia, achando que alguma coisa estava ocorrendo, resolveram arrombar a porta. Quando a porta abriu depararam-se com Artur caído ao chão, desacordado, ao lado da cama. Trataram de socorrê-lo, mas, como o hospital do distrito não tinha recursos para lhe dar uma assistência adequada, o transferiram para Caicó, cidade maior onde havia UTI. Marilia comunicou-se com a irmã exigindo que viesse  tomar conta do pai, pois era  desocupada, e ela não tinha tempo e com esta condição era dela a obrigação, esquecendo Marilia que Magdala tinha filhas e esposo, devendo a eles obrigações de mulher e mãe.

Tomou conhecimento do ocorrido na tarde do aniversário de Matilde, sua filhinha de 6 anos; estava no meio da comemoração. Logo ao término e sabendo que o pai estava na UTI, partiu para encontrá-lo. Não pode vê-lo de imediato, esperou o horário de visita. Nesse internamento descobriram que ele estava com um tumor no cérebro. Foi retirado o tumor, era um câncer e, de acordo com os exames, dos mais agressivos, e a situação era grave. Magdala ficou dando assistência a seu pai sem que a irmã aparecesse. Ao receber alta, telefonou para a irmã dizendo a hora que chegaria, esperando que ela recepcionasse o pai.

Para sua surpresa, não apareceu nem para abrir as portas da casa. Ela teve que solicitar uma quentinha para almoçarem. Imaginem isto, em um distrito do interior, a dificuldade e a precariedade. Decepcionada com sua irmã, teve   a sensação de estar num barco só, sem ter com quem contar. Ficou desesperada porque o médico passou 20 sessões de radioterapia que só fazia em Natal. Então apelou para um casal de amigos que lá residiam, amizade que construiu quando seu esposo atuou como militar servindo em Natal, que os alojou durante todo tratamento que durou um mês. Acompanhou-o em todas as sessões, longe do esposo e das filhas, o que a deixava desolada por não contar com ninguém da família que a ajudasse, mas não fraquejou na assistência e no carinho que dedicava ao pai enfermo.

Não tendo mais condições de ficar sozinho e contando com o apoio de seu marido trouxe o pai para  morar em Joao Pessoa. Acomodou-o em sua casa. Passaram Natal e o Ano Novo bem. Um dia saiu e quando chega em casa vê que seu pai está caído no banheiro. Entrou em desespero, sozinha, sem ter por quem chamar, apareceu um soldado que prestou socorro. Levou-o para o Hospital de Trauma.  Sabedora da demora do tratamento e não tendo mais condições de permanecer naquela situação, optou por cadastrá-lo no SUS da Paraíba e poder receber os benefícios e tratamento grátis, uma vez que sua residência era aqui. Com isso pôde continuar o tratamento no Hospital Laureano. Os médicos explicaram que se tratava da volta do tumor, muito maior que o primeiro, dando ao seu genitor o diagnóstico de, no máximo, seis meses de vida.

Atualmente, Magdala vive um sofrimento contínuo com o estado de seu pai, que a cada dia piora, com a sensação da incerteza da cura. É como tudo que fizesse fosse em vão. É o reconhecimento da impotência diante do quadro. Nem por isso desanimou e desistiu da luta inglória. Faz todo esforço para lhe demonstrar seu amor e carinho. Sente-se confortada, porque a ciência não teve como recuperá-lo, mas nesse estertor de sua vida levou seu afago e dedicação devotada, reconhecidos por ele em momentos de lucidez, consciente de estar se despedindo da vida. E ao terminar esta crônica recebo a notícia que seu Agenor faleceu hoje, como me disse-me Magdala: “papai descansou”. Seu funeral será na sua pequena cidade do interior, pois era seu desejo que fosse enterrado no mesmo túmulo junto com o corpo de sua esposa.

Muito me comoveu o sentimento do verdadeiro amor filial de Magdala. Acompanhei sua trajetória. Desprendida, passando três meses longe do marido e das filhas que ficaram sob os cuidados de uma amiga irmã. Pareceu-me incansável diante dos percalços e vicissitudes que se apresentaram. Manteve-se firme, sozinha, sem limites e barreiras para levar o alento a seu pai, enquanto sua irmã mostrava-se insensível e desprovida dele. Fica a pergunta: o que faz o ser humano ficar tão embrutecido?  Creio que os nossos pais são patrimônios, tesouros e valores, dignos e merecedores de nosso respeito e de nossa eterna compreensão.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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