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MAISPB ENTREVISTA

Guilherme Arantes, 50 anos de sucesso

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publicado em 25/09/2021 às 11h55
atualizado em 25/09/2021 às 16h14
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Kubitschek Pinheiro MaisPB

Fotos – Marcia Gonzalez

Ao celebrar 50 anos de história na música brasileira, Guilherme Arantes, o precursor do pop romântico no Brasil, mostra que está em plena atividade e vai bem mais, muito mais. Radicado na Europa, o cantor e compositor paulistano acaba de lançar “A desordem dos templários”, o 25º título de sua obra fonográfica.

Com uma atmosfera de sonho, fantasia e poesia, o novo álbum “A Desordem dos Templários” já nasce um clássico. É para ouvir muitas vezes e pensar em que mundo estamos.

Em 2019, antes da pandemia, o artista deixou o litoral baiano, onde criou a ONG “Planeta Água”, e se instalou em Ávila, na Espanha, cuja finalidade era estudar música barroca. Cercado de suntuosos castelos medievais, ele viu surgir a inspiração para criar as 10 canções, gravadas remotamente com a participação de músicos no Brasil e registradas no novo álbum que saiu em formato físico e está disponível nas plataformas digitais. É um disco histórico.

Fiel mais do que nunca ao seu estilo, mas exibindo agora um aprimoramento cosmopolita enquanto compositor e letrista, Arantes que é autor de clássicos como ” Meu Mundo e nada mais”, “Cheia de charme”, “Coisas do Brasil e “Amanhã” ( que Caetano Veloso gravou, no show Totalmente Demais, em 1985, no Copacabana Palace), Arantes criou para o novo CD baladas melodiosas de textos sofisticados, a exemplo de “A Cordilheira”, “A Razão Maior” e “Nossa Imensidão a Dois”. Elis Regina e Maria Bethânia, entre outros, também gravaram Guilherme Arantes.

O som progressivo se misturou com os pós-tropicalistas do Nordeste e surgiram no seu caminho João Cabral, Ariano Suassuna e sua Pedra do Reino, Alceu Valença, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho no fluxo dos repentes delirantes com inflexões do Cordel e sua cultura marcadamente Ibérica em lendas épicas de paisagens áridas”.

“Eu, ali num cenário inacreditavelmente pertinente, as Cruzadas cravadas nas pedras da cidade, os cavaleiros trágicos e imaginários, encontrava então o mote que eu precisava pra fazer a ligação da estranha realidade no meu retiro, com os conflitos do panorama externo do mundo, nascia, assim, a música-titulo, “A Desordem dos Templários”. Lançamehto Coaxo do Sapo e distribuição digital Altafonte

Destacam-se, também, esboços de rock progressivo, gênero que marcou o início da carreira do jovem músico, como líder da banda Moto Perpétuo, representado por El rastro e Nenhum sinal de sol e, claro, A desordem dos templários. Chama a atenção, ainda, Estrela mãe, que Arantes compôs para a mãe, a quem tinha como referência, morta recentemente.

Em entrevista ao MaisPB, Guilherme Arantes conversa sobre as novas canções, em tons reflexivos, nesses momentos de sua carreira. A cara que compôs Planeta Água, já é grande demais, para saciar nossa sede e carência de luz, nestes tempos sombrios que estamos vivendo

MaisPB – “El Rastro” a primeira faixa, já dá o tom do potencial do disco, nos indicando uma vida nova, – fala do cio do verão e mil gerações e milagres. Vamos falar dessa canção que abre o disco?
Guilherme Arantes – Foi a primeira que saiu ainda na passagem de 2019 para 2020, no inverno, com os montes gelados da Sierra de Gredos, enquanto eu estudava um pouco de música barroca no cravo, fui dedilhando essa brincadeira no piano Nord 4 , e me encantei pela delicadeza da melodia… Traz uma melancolia daquele momento de transição, um final de ciclo para mim, uma saudade do desconhecido… Depois mais tarde se transformou em uma inspiração minha em Simon & Garfunkel… com shakers, bongôs e percussões no tampo do violão… e muitas camadas de violões … a letra , já a primavera, começava a incorporar a chegada das andorinhas aos milhões nas muralhas, as cegonhas do inverno já abandonando os ninhos …

MaisPB – A “Desordem dos Templários”, terceira faixa, que dá nome ao disco, fala da vida da gente, e é bem profundo; das crianças aos eternos dias de batalhas. Essa canção é muito forte. Ela revela, o que na escrita se cumpriu?
Guilherme Arantes – Isso surgiria no meio de 2020, em forma de uma epifania reveladora, um fluxo de consciência irrefreável, quando redescobri a “levada” do baião progressivo setentista… Uma inspiração assumidíssima no Zé Ramalho, que eu adoro, nos repentes de um cantador delirante, incorporando o tom Armorial, um pouco também da cultura do Cordel, são coisas que trazem uma influência ibérica… Tento passar a minha angústia com este tempo de desmanche das Utopias, um tempo de narrativas em conflito, uma sensação desconfortável que brota das redes sociais, numa nova Barbárie do mundo…

MaisPB – Você estava na hibernação total no Coaxo do Sapo, no litoral norte da Bahia, quando bateu a vontade de fazer esse disco?
Guilherme Arantes – Sim, foi um final de fase, que marcou o ano de 2018, quando percebi que eu havia ficado sozinho com um estúdio-pousada para músicos na Bahia, uma coisa inadaptada para uma nova realidade, quando todos foram embora. Meu filho Pedro, que é uma peça fundamental nesse sonho, casou, teve 2 filhos, foi pra São Paulo trabalhar, a realidade da nova música experimental no Brasil, especialmente na Bahia, impunha anos de dedicação e muitos recursos praticamente a fundo perdido, sem muito retorno suficiente para uma auto sustentação. O mesmo aconteceu com Gabriel Martini, músico, meu baterista, e produtor na Coaxo, que viu sua vida de “adulto” tomar o mesmo rumo, tendo que ir para São Paulo também.

MaisPB – Falando em família, sua filha Marieta voltou para São Paulo para seguir a carreira do pai?
Guilherme Arantes – Sim, a Marietta, voltou para São Paulo para batalhar a carreira dela, de cantora, num segmento que exigia ela estar também no Sudeste. Por fim, Tiago, meu filho biólogo, foi batalhar a vida dele na Holanda. Até a pequena Paola, que também cresceu e hoje é uma mulher formada e profissional, foi fazer Biomédicas e se especializar lá em São Paulo. Quando eu vi a nossa realidade toda familiar havia tido uma nova dinâmica, e era preciso eu me readaptar. Montei um pequeno estúdio para mim, no meu bairro em Lauro de Freitas, e parte do estúdio da Coaxo foi remontada em São Paulo, lá com o Gabriel Martini, o que possibilitaria mais tarde, agora em 2020, a gente fazer o novo disco dessa forma. Mesmo desmembrado, realocado, o sonho continua e continuará para todos nós.

MaisPB – Há um bom tempo que você não fazia um disco tão completo, com metáforas nuas e cruas. A pandemia lhe trouxe essa força, essa sentimentalidade?
Guilherme Arantes – Acho que a pandemia trouxe pra todo mundo uma reflexão maior, então o meu caso não é uma exceção. O meu disco novo me traz num momento muito peculiar e particular, da idade, do lance espiritual, das leituras, das pausas e silêncios de reorganização da cabeça… Me traz também inserido numa fase de transição importante do mundo, do Brasil, de preocupações e de intuições profundas sobre o passado, o presente, e principalmente o futuro…

MaisPB – A quinta faixa “Vinheta do Templário” começa com um galope e vai crescendo e temos a impressão que estamos num filme, sinos da igreja e lá vai embora o cavalo e a gente fica esperando pela sua voz. Que sacada, hein?
Guilherme Arantes – É uma sonoplastia, que na versão do cartão USB vem no formato Surround 5.1 , é uma alegoria sobre esse contexto belicoso e anacrônico que se tornaram estes anos de crispação nas redes sociais, mesclada com a angústia pandêmica, a crise ambiental planetária, essa confusão mais e mais desafiadora que a Humanidade vai trilhando…

MaisPB – A sexta faixa “Cordilheira” já nos traz esperanças….. e amor, uma promessa, uma visão boa, além de se repetir só instrumental…
Guilherme Arantes – É uma outra abordagem sobre estes tempos desafiadores, de um obstáculo interior, uma Cordilheira a ser transposta no interior de nossas almas, em busca do outro lado vasto, pacífico, monumental… e dos grandes desertos com lagos de sal, onde colocamos nossos radiotelescópios voltado para o Infinito, o insondável do Universo…

MaisPB – “Nenhum Sinal do Sol”, a quinta faixa, é uma viagem no tempo?
Guilherme Arantes – Nenhum Sinal do Sol é uma outra viagem, de um amor medieval vivido em sonho, com tons e instrumentos medievais, renascentistas e barrocos, uma coisa que me remete ao Rock Barroco dos Stones, do Led Zeppelin, Elton John, Jethro Tull, Cat Stevens…

MaisPB – “Estrela-mãe”, sétima faixa, parece uma oração?
Guilherme Arantes – Estrela-mãe é uma carta de amor para a mamãe, no seu momento de partida, uma música muito pessoal para ela.

MaisPB – Ouvindo “Toda Aflição do Mundo” a oitava faixa, dá vontade de dançar, apesar do breu, né?
Guilherme Arantes – Toda Aflição do Mundo é a mais híbrida de todas, reunindo várias influências, sei lá, é outra epifania minha com a aflição que este mundo atual nos provoca. Talvez o ponto mais nevrálgico seja “Pra desenhar o retrato do Outro” … porque é uma proposta de desarmamento de espírito como única solução para um mundo tão atrapalhado em seus conflitos por toda parte…

MaisPB- “Nossa Imensidão a Dois” a nova faixa, é uma balada linda. Foi feito para seu amor?
Guilherme Arantes – Claro que é feita para Márcia, um amor maduro e inclusivo, compreensivo, harmonizador. E traz uma visão panorâmica do mundo afetivo, nesse ponto em que se encontra a minha vida. Tenta fazer uma reflexão sobre a linda trajetória que é e história afetiva de todos nós, um acervo de incalculável valor que devemos preservar com carinho…

MaisPB – Vamos falar de Dona Hebe sua mãe, que foi morar com Deus?
Guilherme Arantes – Uma mulher à frente do seu tempo, porque tudo nela tinha uma explicação plausível, e me ensinou a galgar a vida com perseverança e determinação. Foi uma grande estrategista, na simplicidade da sua vida, e deixou um legado de percepções.

MaisPB – Você convidou Arthur Verocai para escrever esse arranjo das cordas e quem mais entra com luz nesse projeto?
Guilherme Arantes – Sim, Verocai foi uma escolha muito acertada, como foram os músicos Willy Verdaguer no baixo, o Luiz Carlini na guitarra, o Alexandre Blanc nos violões e nas guitarras, o Gabriel Martini na bateria e percussões, o Cassio Poletto no violino, o Luciano no trumpete, o Ivo Carvalho nas guitarras de A Cordilheira, e principalmente um grande destaque, o Antonio Moogie Canazio nas mixagens feitas em Los Angeles, Califórnia, que deu um show à parte em qualidade e segurança, gerando um disco redondaço do começo ao fim….

MaisPB – Kyrie décima faixa (instrumental) parece uma canção de cinema?
Guilherme Arantes – Poderia sim ser um tema cinematográfico, é para ser mesmo um épico no disco.

MaisPB – “Across The Abyss” – parece que a gente está assistindo a seu show?
Guilherme Arantes – É um tema bem oitentista, com a eletrônica misturada com solo de piano.

MaisPB – A gente escuta você cantar “Amanhã” será um novo dia, escutamos Caetano cantar, amanhã será um novo dia. Estamos próximos de sair desse escuro, dessa pandemia?
Guilherme Arantes – Não sei dizer, a música se refere a um “Amanhã” que é uma referência lá num futuro imponderável. É a esperança de que as coisas, ao final, terão dado certo. Se ainda não deram, é porque o final ainda não chegou….

Confira o clipe da canção A Cordilheira

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