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entrevista de sábado

Alceu Valença detalha sucessos e fala de fé

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publicado em 28/08/2021 às 17h48
atualizado em 28/08/2021 às 17h04
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Kubitschek Pinheiro – MaisPB

Fotos: Leo Aversa

“Saudade”, novo álbum em voz e violão de Alceu Valença, é o segundo dos quatro lançamentos no formato que o artista apresenta ao longo de 2021. A faixa-título foi composta durante o período de quarentena na pandemia. O disco traz 11 faixas. O selo é da Deck.

Nessa levada, Alceu expressa com suavidade e lirismo todo o espanto diante do medo, das despedidas, das desigualdades. “Saudade da estrada, saudade da rua”, canta o poeta pernambucano, acostumado a fazer nas canções a crônica de suas caminhadas diárias pelas ruas do Rio ou do Recife, como em “Andar, Andar”, que está nesse novo disco.

Habituado à apoteose das multidões, Alceu toca fundo na canção “Saudade” . “Respiro o agora / esqueço o passado, os meses, as horas”. O tempo não espera. “Projeto um planeta mais civilizado / saúde e empatia sem pobres coitados”, canta Alceu sobre a nação solidária, que se renova nessa bela canção.

A música que abre o álbum é o samba “Era verão”, outra inédita, que fala sobre a mudança do jovem Alceu do Recife para o Rio de Janeiro, no começo da década de 1970. A ordem das faixas compõem um roteiro sentimental idealizado pelo artista.

O álbum foi gravado no Estúdio Tambor (Rio de Janeiro), com produção de Alceu Valença e Rafael Ramos, que têm Matheus Gomes na técnica e Yanê Montenegro na produção executiva.

Na sequência, versões intimistas de dois de seus maiores sucessos: “Tropicana e Como Dois Animais” (ambas de 1982) que nos remete a verões festivos, repletos de mistérios, desejos e sabores tropicais.

“Ai de Ti Copacabana” (2005) faz alusão a crônica de Rubem Braga. “Tesoura do Desejo” (1991) é uma canção ambientada “num certo bar Leblon”, que prepara o clima devorador de “Solidão” (1984). “Samba do Tempo” (2005) mexe nas entranhas do artista e se espelha em “Ladeiras” (1994), além do no mantra Olinda (1985).

Alceu está muito bem, anda todos dias no Clube das Caiçaras, que é uma ilha dentro da Lagoa Rodrigues de Freitas. “Eu fico entre o Leblon, Lisboa e Olinda. Eu não moro, eu namoro as cidades. Minha vida é viajar”, avisa.

A viagem de Paulo Rafael 

Na última segunda-feira perdemos o guitarrista pernambucano Paulo Rafael, vítima de câncer, aos 66 anos. Foi com Alceu Valença, que Rafael tocou e produziu vários dos seus discos. Os dois se conheceram em Olinda, enquanto Paulo tocava com o “Ave na Rua”, em frente à Igreja da Misericórdia. Desde então, a troca de influências se tornou prazerosa entre os dois, durante 4 décadas. Paulo traz os solos da guitarra e do rock, e Alceu colocando a tradição violeira regional. Alceu não se pronunciou ainda sobre a morte do amigo.

Em 2014, Alceu deu um depoimento falando sobre o papel de Paulo em sua carreira. “Paulo Rafael também é da minha região e, naquele primeiro momento, a geração dele negava um pouco as músicas das nossas raízes. Ele descobriu com a gente que não precisava negar as influências do rock, que também poderia se voltar para o regional. Tornou-se um dos guitarristas mais originais do Brasil e conhece a música do interior, dos violeiros e aboiadores. Isso os guitarristas não conhecem, pois sabem é de balada, não de toada; do rock, e não do xote. Ele é super criativo, tem sonoridade e bom gosto inacreditáveis. Originalíssimo. É uma referência e um grande amigo. Trabalhamos juntos na definição do meu som – ele teve um papel fundamental nisso.”

Essa é a segunda vez este ano que Alceu Valença concede entrevista ao MaisPB. Desta vez ele estava dentro de um táxi, no Rio, cujo motorista é natural de Guarabira. Leia nossa conversa e saiba mais deste disco e do próximo que deverá sair até o final de 2021, com a participação de Paulo Rafael, ora na viola, ora na guitarra. O disco já havia sido gravado, antes da morte do guitarrista.

MaisPB – E aí Alceu, vamos matar a “Saudade”?

Alceu Valença – Vamos sim, vamos matar a saudade. Essa canção eu fiz na pandemia, relembrando os amigos, do confinamento, dos que estão distantes de mim, mas eu lembro sempre deles.

MaisPB – É tão bonita a letra de “Saudade”, parece uma canção antiga?

Alceu Valença – Por isso que ela se chama Saudade. Nesse disco estão as memórias dos verões do Rio de Janeiro. Essa saudade toda, da cidade de São Paulo, onde compus “Tropicana”. Saudade dos carnavais de Olinda, onde compus “Como Dois Animais”. A procura da saudade, de um amor perdido. Saudade do “Andar Andar”, das ruas do Rio, saudade das musas. Aí vem a solidão que reflete. Lembra uma música antiga sim, mas reflete também isso. É muita coisa que estamos vivendo.

MaisPB – Tem outra canção inédita nesse disco, que é o samba “Era Verão”. Vamos falar sobre essa novidade?

Alceu Valença – Eu compus pensando nos anos 70, não foi só isso. Porque são tantos verões, mas vem à minha memória outras coisas. Eu me vejo no verão do Rio de Janeiro, quando fui fazer “Molhado de Suor”, de 73. Também me lembro que eu ia no Posto 9. Tantas vezes que fui para praia. É por aí…

MaisPB – Esse disco segue o roteiro do primeiro, bem sentimental…

Alceu Valença – E cinematográfico também. Dá-se a impressão quando ouvimos que a pessoa mergulha com motivos. É uma alegria danada.

MaisPB – Nesse álbum temos “Tropicana” (a segunda faixa) e “Como Dois Animais”, (terceira faixa) dois clássicos…

Alceu Valença – Dois Animais eu fiz no carnaval de Olinda, inspirada numa moça e um rapaz, de terça pra quarta-feira de cinzas, na Praça da Preguiça. Eu vi essa cena e fiz a música. “Se amando na praça como animais…”, canta ele no telefone.

MaisPB – Outro clássico que está nesse trabalho é a quarta faixa “Ai de Ti Copacabana” que você nos remete para uma crônica de Rubem Braga…

Alceu Valença – Rubem Braga eu o conheci através de um sobrinho dele, depois nos falamos pelo telefone. Fiz essa canção citando uma crônica dele, “O Conde e o Passarinho”, que está na “Na Primeira Manhã”. O sobrinho dele me contou que o cronista tinha ficado emocionado e eu liguei para ele. Foi muito bom. Falo em Rubem Braga e cito Caymmi nessa canção. Estou passando agora aqui pertinho, ( o artista estava dentro de um táxi, concedendo a entrevista) onde encontrei Caymmi duas vezes, no Forte de Copacabana, eu, ele e Jobim.

MaisPB – O Brasil não seria o mesmo sem Caymmi, né Alceu?

Alceu Valença – Com certeza. Maravilhoso, poeta da porra. Ele gostava de mim. Muito simpático. Depois da entrevista que demos lá no Forte de Copacabana, saímos os três para um bar.

MaisPB – Vamos falar da canção “Andar, Andar” que está nesse disco Saudade?

Alceu Valença- Do disco “Andar Andar”. Essa música eu gosto muito. Me traz boas lembranças. “Eu compus essa canção, andando de Ipanema para o Baixo Leblon, procurando te encontrar, no meu Rio de Janeiro”, canta ele ao telefone.

MaisPB – E a canção “Tesoura do Desejo”?

Alceu Valença – Essa música foi inspirada num desencontro no bar Melon em Nova Iorque, mas aí eu coloquei no bar do Leblon, pra ficar mais sintonizada.

Mais PB – Linda a canção “Samba do Tempo”. Fale aí?

Alceu Valença – Essa eu fiz em Paris. Eu fiz num apartamento em que morava em Les Gobelins, a letra se refere às duas portas de onde sai, naquele momento eu me reportava ao tempo que morei lá. É de 1987. Foi quando fui participar de um festival.

MaisPB – Sua obra é muito vasta… E a canção “Ladeiras”?

Alceu Valença – Essa eu fiz para Olinda, toda para aquela cidade amada. Vasto é o mundo, disse ele rindo

MaisPB – E “Solidão”, que nesse disco você canta como um lamento…

Alceu Valença- Eu fiz essa canção num hotel em Belo Horizonte, depois de um show no Palácio das Artes. Voltei para o hotel sozinho. Quando estou só, vejo a lua, as estrelas, mas estou só. Interessante, né?

MaisPB – Já está pensando em shows?

Alceu Valença – Já temos shows no Espaço América em São Paulo, temos no Vivo Rio e uma demanda de dez shows na Europa, em janeiro e julho do ano que vem.

MaisPB – Você acredita que as coisas estão melhorando, com a vacinação…

Alceu Valença – Está melhorando, mas é necessário que todos se vacinem, usem máscaras. Sempre segui o que a ciência diz.

MaisPB – Falta sair o terceiro e o quarto disco?

Alceu Valença – O terceiro eu faço com Paulo Rafael, meu violão e a viola dele, algumas canções ele toca viola, outras guitarra. Estamos juntos desde 1995. Um grande artista. O quarto disco será só eu voz e violão.

MaisPB -Alceu acredita em Deus?

Alceu Valença – Acredito no Universo, que deve existir alguma força maior. Eu respeito todas as religiões, mas não tenho religião. Que é um alento, eu sei. O espiritismo, o cristianismo, umbanda, tudo bem, eu respeito. Eu não posso mentir para mim mesmo.

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