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Entrevista

Ivan Lins, Marcos Vall e Joyce Moreno cantam a dor do Brasil no triste 2021

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publicado em 22/05/2021 às 12h11
atualizado em 22/05/2021 às 13h53
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Ivan Lins, Joyce Moreno e Marcos Valle: o que a pandemia juntou a música não separe

Kubitschek Pinheiro – MaisPB

Uma parceria inédita, Marcos Valle, Joyce Moreno e Ivan Lins fazem homenagem ao Rio de Janeiro e ao Brasil, tão castigados nos últimos tempos. O single “Casa que era minha” (selo da Deck) estreou nas plataformas digitais e não para de tocar. Uma canção brasileira que dá seu depoimento sobre o Brasil. Uma canção sobre o triste ano de 2021.

O trio diz que se juntou pela primeira vez com o objetivo de cantar – e chorar pelo país, uma maneira de tentar proteger a cidade onde os três nasceram, o Rio. Joyce assina a letra, enquanto a melodia foi composta por Marcos e Ivan.

A parceria de Marcos Valle e Ivan Lins teve início há cerca de um ano, quando eles conversavam sobre os grandes festivais europeus. “No meio do assunto, Ivan virou-se para mim e disse: ‘Rapaz, nunca fizemos música juntos. Por quê?”, relembra Marcos. “Decidimos fazer na hora.”

Sim, foi em nome da canção brasileira que os três artistas se juntaram pela primeira vez para cantar o Brasil e estender o amor de uma canção para as regiões profundas do nosso país, em melodia e letra, explícita: “Quem me dera te proteger, ai/Desses tantos perigos/Àquela que é mãe pra nós/ E que nos criou com sua voz”.

Ivan mandou para Marcos um pedaço de melodia, que se transformou no início de “Casa que era minha”. Aí nasceu a parceria. Marcos sugeriu que Joyce fizesse a letra, pois queria agregar uma visão feminina bem brasileira à canção.

A sensibilidade vaza da letra escrita por Joyce Moreno, que desenha o nosso angustiante momento, promove uma certa esperança, desnudando o Rio e o Brasil melancólicos, com tanta violência e perdas pela Covid 19, como pede a melodia da primeira parte (“Minha bem amada/ Casa que era minha/ Quem te maltratou/ Te fez tão sozinha/ Diga”) e encontrando uma fresta de solução na segunda parte solar (“Quem me dera te proteger, ai…”).

Valle produziu e registrou o piano, Joyce o violão e Lins cuidou das cordas. Ao trio se juntaram Alberto Continentino (baixo), Renato “Massa” Calmon (bateria) e Jessé Sadoc (flugelhorn), três dos maiores músicos da atualidade nos seus instrumentos. Os três gravaram as respectivas partes e devolveram para Marcos, que colocou seu piano Fender Rhodes na faixa.

O Portal MaisPB conversou com os três artistas e traz o relato de cada um sobre a força dessa canção, a junção de melodia e letra e comentam as novidades de novos trabalhos.

Marcos Valle

MaisPB – Como aconteceu esse single de “Casa Que Era Minha”?

Marcos Valle – Eu sou parceiro da Joyce (Moreno), em outros discos passados, mas nunca tinha sido parceiro de Ivan Lins. E nós três temos uma carreira parecida, de tocarmos em vários lugares no exterior. Outro dia eu estava conversando com Ivan (Lins) sobre festivais ele disse: nós nunca fizemos música juntos? Aí acertamos de trabalhar numa canção e em outras, quem quase.

MaisPB – Então, “Casa que era minha”, nasceu de uma conversa ao telefone?

Marcos Valle – É por aí, ele me disse que já tinha uma melodia pronta, a primeira parte de uma música e me mandou. Quando chegou, eu logo fiz a segunda parte.

MaisPB – Não é fácil fazer isso, né Marcos?

Marcos Valle – Num é não. Para isso acontecer a pessoa tem que trabalhar com uma coisa nova e precisa estar de acordo com o enredo, do que veio. Principalmente porque você tem que devolver a para a primeira parte outra vez. Para se fazer uma música, uma melodia, ela precisa ter um final.

MaisPB – Ok. A parte de melodia de Ivan me parece um pouco triste…

Marcos Valle – Exatamente. É a maneira de compor. Quando invoquei para o tema e mostrei para Ivan, ele disse que estava perfeito, tudo encaixado. Aí eu sugeri, apegar a visão de uma mulher para fazer a letra. Temos tantas mulheres talentosas….

MaisPB – Aí veio o nome da Joyce Moreno?

Marcos Valle – Eu disse a Ivan, que adoro Joyce e ele também. Deu tudo certo. Eu fiz a produção toda do single. Liguei para Joyce Moreno, contei a ela dessa alegria, e ela topou na hora fazer a letra. Mandei a melodia, ela gostou muito. A gente não disse qual era o tema, ela escreveu tão bem, tão bonita a letra. Ao escutar a canção, na segunda parte, a letra roga uma esperança, “quem me dera te proteger de tanto perigo”. Isso é um sonho, é um tema de amor a nossa cidade, o Rio, que está esse lamento. O Rio está muito mal tratado.

MaisPB – Tem um entrosamento muito grande entre vocês três nessa canção…

Marcos Valle – Sim, muito. Eu pego a melodia dele, fazer a minha e entender a emoção de cada parte. A Joyce, além de letrista, é musicista, isso ajudou em tudo. E nós três nos gostamos muito um do outro. Foi por amor a música.

MaisPB – Como a coisa ficou formatada?

Marcos Valle – Eu liguei para a Deck, (gravadora) disse da nossa ideia e o Rafael, que é filho de João Augusto, dono da gravadora, topou. Eu chamei os músicos, cada um em sua casa, eu com o piano, Joyce com seu violão e Ivan que precisava de um som de cordas. Ivan tem um teclado de cordas bem aproximado e ficou tudo muito bonito. Eu fiz o arranjo com Ivan. Cada um fez sua parte em suas casas, mandei a partitura, eu cantando provisoriamente. E as coisas foram chegando. Mandei para Joyce e para o Ivan e fizemos essa canção tão linda “Casa que era minha”. No clipe Ivan começa cantando, depois eu canto e vem a Joyce nós três cantamos juntos até o final.

MaisPB – Marcos, “Casa que era minha”, ela se estende pelo Brasil inteiro…

Marcos Valle – Consideramos isso, a gente fala da nossa cidade, mas é cada cidade do Brasil. São Paulo, Pernambuco, João Pessoa, Rio Grande do Sul. Como a própria capa, amarela, com destaque para o Rio, para fazer um lamento, uma declaração de amor, mas é para o país inteiro.

MaisPB – Todos ficaram satisfeitos com o resultado?

Marcos Valle – Extremamente felizes, quando ouvimos foi uma coisa maravilhosa. É diferente de gravarmos num estúdio. Juntei tudo e mandei a fita para a mixagem na Deck. Quando a música ficou pronta, nós nos arrepiamos, ficou uma unidade, da composição e da sonoridade.

MaisPB – A pandemia tem nos machucado, mas tem enriquecido culturalmente com tantos artistas produzindo em suas casas…

Marcos Valle – Fruto da pandemia, do recolhimento, de você reagir. Contra uma situação difícil para trabalhar. A música tem a vantagem de nos permitir, fazer esses mergulhos dentro da gente, triste ou alegre. Esse momento de estar em casa, nossa casa passa a ser o palco.

MaisPB – Mais novidades?

Marcos Valle – Estou fazendo muitas coisas. A minha ideia, o próprio Ivan, quando a gente começou a fazer essa música, ele me propôs fazer um disco. E eu acho que vai dar certo. Já estamos com duas músicas à frente. Esse é o plano inicial.

MaisPB – E sua participação no disco de Tom Misch?

Marcos Valle – Ah sim! Um garoto de 24 anos, sucesso na Europa, fizemos uma música no disco dele e pretendemos trabalhar juntos.

MaisPB – E o disco com Nando Reis?

Marcos Valle – Esse é o mais próximo que vai sair. O produtor é o Marcus Preto. Ele fez uma ligação entre eu e o Nando Reis. Já estamos na décima música. Todas as melodias são minhas e todas as letras são dele. Pretendemos lançar logo, mas com vários intérpretes, cantores, cantoras, os mais antigos e mais novos, mas todos que tenham a ver com nossa música, como Marisa Montes, por exemplo. A ideia é fechar em 12 canções. Digamos, o Silva, Emicida, uma faixa com Ana Vitória. Ainda não fechamos.

MaisPB –-Tem visto Roberto Menescal?

Marcos Valle – Tenho falado sempre, é uma pessoa muito querida, amigo, grande amigo. O tempo todo ele me manda mensagens. Eu gosto muito do “Menesca”. A gente não está podendo se encontrar e ele mora bem pertinho de mim.

MaisPB – Sua mulher, Patrícia, tem ajudado nessas produções?

Marcos Valle – Ela me ajuda muito. Essa parte técnica toda foi ela. Eu tenho um pequeno estúdio e a Patrícia me ajudou muito na produção desse single, mandando as vozes, ela é minha engenheira de som em casa, o tempo todo A minha felicidade é a felicidade dela.

Joyce Moreno

MaisPB – Joyce, quando Marcos Valle disse que a letra de “Casa que era minha” é sua, fiquei pensando na Cidade Maravilhosa, o Rio, tão bonito, tão brasileiro…

Joyce Moreno – Sim, a letra sintetiza o amor de três cariocas por sua cidade, hoje tão sofrida.

MaisPB – Quando você fala em “minha bem amada” lembrei de Vinicius de Moraes, uma identificação que termina esbarrando na cidade amada, não é?

Joyce Moreno – Há muito de Vinícius nessa letra, inclusive o termo “pátriazinha”, que ele usa em seu poema “Pátria Minha”. Uma forma carinhosa de se referir à cidade e ao país.

MaisPB – A letra veio rapidinho?

Joyce Moreno – Ivan fez a primeira parte da melodia, Marcos a segunda, mandaram pra mim e eu fiz a letra mais ou menos em uma semana.

MaisPB – Outra coisa, “Casa que era minha”, é o Brasil inteiro, né?

Joyce Moreno – Sim, pois o Rio de Janeiro é sempre um espelho do melhor e do pior do Brasil.

MaisPB – Tem trabalhado muito nessa pandemia?

Joyce Moreno – Tenho composto muito, sozinha e com parceiros, que estão numa fase de furor criativo muito grande. Ano passado terminei e lancei o livro. Este ano tenho me dedicado mais à composição mesmo. Além deste single com Marcos e Ivan, saiu também um outro, pela Biscoito Fino, de minha parceria com Moraes Moreira, “Aquele Abraço do Gil”, que eu canto com Davi Moraes. E outras gravações estão no forno.

Ivan Lins

MaisPB – Ivan, conversando com com Marcos Valle, ele disse que você fez a primeira parte da melodia. Vocês nem sabiam que a segunda parte, se casaria com a letra de Joyce. Vamos falar dessa junção brasileira?

Ivan Lins – A letra veio depois que a minha parceria melódica com o Marcos estava pronta. Foi muito bom começar essa parceria com o Marcos. Sempre gostei muito da música dele, e achei que nossa musicalidade ia combinar bem. E acertei. Já fiz uma música com a Joyce, gravada pela Simone, no disco “Baiana da Gema”, de 2006, chamada “Cínica”. A sugestão de convidarmos a Joyce para fazer a letra foi do Marcos. Concordei na hora. Todos nós três somos cariocas. Talvez daí, Joyce tenha achado o tema da letra.

MaisPB – Quando a gente começa a ouvir, a primeira parte e você começa cantando percebemos que música vai crescendo e fica uma sensação de orquestra, estou certo?

Ivan Lins – Exatamente. A letra vai ganhando pujança, e coloquei as cordas para subir junto.

MaisPB – A canção “Casa que era minha” é uma forma de carinho, de tocar na pele da cidade do Rio e por extensão, o nosso país, tão despedaçado?

Ivan Lins – Exatamente. A Joyce nos consultou sobre o tema da letra,no que concordamos imediatamente. A realidade que estamos vivendo é de um surrealismo perverso, que nunca poderíamos imaginar que fosse possível acontecer. Essa pandemia, que por descaso do governo, chegou a um estágio doloroso, e a falta de um presidente. O que temos é um desumano delinquente.

MaisPB – Marcos falou que essa parceria com você deverá crescer. Seria muito bom um disco Ivan Lins e Marcos Valle?

Ivan Lins – Seria lindo!! Quem sabe?

MaisPB – O que você tem feito nessa pandemia que se alonga cada dia mais? Já está vacinado?

Ivan Lins – Já tomei as duas doses, e moro em Teresópolis, na serra, numa casa cercada de árvores, passarinhos, ar puro e silêncio. Muita tranquilidade. Até demais! Temos música, livros, comida caseira, ótima Internet, Netflix, HBO, etc e estradinhas para caminhadas. Não posso reclamar.

MaisPB – Bem protegidos, né?

Ivan Lins – Estamos protegidos. O que estraga é a triste situação de nosso povo, sua dor, a falta de trabalho, e o desmonte do Brasil. Caminhamos céleres para sermos a lixeira do mundo, a Gení do planeta. Infelizmente.

MaisPB