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CANTORA LANÇA NOVO ÁLBUM

Entrevista MaisPB: “É momento de estarmos fortes”, diz Gal Costa

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publicado em 13/02/2021 às 11h23
atualizado em 13/02/2021 às 15h01
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Gal Costa: para artista, postura do atual governo é de ignorância e falta de consciência

Kubitschek Pinheiro – MaisPB

Fotos Carol Siqueira

A cantora Gal Costa lançou ontem ( sexta-feira, 12) o álbum ‘Nenhuma dor’, provisoriamente chamado de Gal 75 em alusão aos 75 anos da artista, celebrados em 26 de setembro de 2020. A capa do álbum estampa diversas fotos antigas da cantora, (algumas de Thereza Eugênia) que traz 10 regravações do repertório de Gal Costa em dueto com jovens artistas formado por António Zambujo, Criolo, Jorge Drexler, Rodrigo Amarante, Rubel, Seu Jorge, Silva, Tim Bernardes, Zé Ibarra e Zeca Veloso.

O nome ‘Nenhuma Dor’ vem da música de Caetano Veloso e Torquato Neto), do disco “Domingo” de 1967 ( Philips), gravado por Gal e Caetano que tem direta influência nas composições do disco. O álbum é dirigido e idealizado por Marcus Preto com produção musical de Felipe Pacheco Ventura e chega ao público em versões de CD e LP. As dez faixas já vinham sendo lançadas em singles pela gravadora Biscoito Fino e também poderá ser acessado em versão digital.

A boa sacada do novo disco de Gal com participações veio no segundo semestre de 2020 em meio ao recolhimento da pandemia. Em um telefonema, Gal Costa comentou com Marcus Preto, com quem trabalha desde 2013, que sentia que os jovens estavam ouvindo mais a música de sua geração do que antes da quarentena. Marcus Preto não contou até três e confirmou a impressão de Gal com dados: o consumo de música “de catálogo” de fato aumentou muito durante esse período, provavelmente porque são clássicos, são bons, sucessos e que nunca param de tocar. Já que não havia ambiente para pensar em um disco de inéditas, por que não fazer um trabalho retomando alguns desses clássicos? E os fãs adoraram.

A tudo isso, somou-se a empolgação de Gal com as duas apresentações do show “A Pele do Futuro”, feitas imediatamente antes do recolhimento, que contaram com as participações de Rubel (na Fundição Progresso, em janeiro) e de Silva (na Concha Acústica de Salvador, em fevereiro). Contou também a ótima repercussão do single ao vivo com Rubel, lançado digitalmente em julho, registro feito sem maiores pretensões, naquela mesma noite, na Fundição.

Como a produção aconteceu em meio à pandemia, as dez faixas de “Nenhuma Dor” foram gravadas em seis cidades: Rio de Janeiro, São Paulo, Lisboa, Madri, Los Angeles e Vitória. O disco é lindo e será o ponta pé para a próxima turnê da artista, quando a pandemia acabar e todos estiverem vacinados.

Em entrevista ao exclusiva ao Portal MaisPB, Gal Costa comenta sobre essa novidade, os clássicos revistos com novos arranjos, a capa do disco que leva a assinatura do artista Omar Salomão, além do olhar permanente de Gal para os jovens e o nosso país. “A esperança move a humanidade”, diz ela.

Sobre o momento político do Brasil, Gal Costa, musa do tropicalismo nos anos 60, crê em dias melhores. O novo trabalho, acrescenta a artista, faz parte dessa esperança: “É o momento de ficarmos fortes que tudo vai passar”.

MaisPB – Gal, primeiro foram saindo os singles e deixando os fãs ansiosos. Agora sai “Nenhum dor” completo. Fale desse processo tão precioso?
Gal Costa – O projeto inicial, que se chamava “Gal 75” foi uma ideia que o Marcus Preto teve antes da pandemia. Para mim foi um respiro, um alívio, poder ir ao estúdio. E espero que seja um alívio para a dor das pessoas com tudo isso que estamos vivendo.

MaisPB – Então, esse disco é fruto da pandemia e também celebra seus 75 anos. Está satisfeita com o resultado?
Gal Costa – Eu acho que esse projeto vai despertar muitas coisas boas nas pessoas. É muito gratificante saber que esse disco pode levar um conforto, um pouco de alegria para quem gosta e se conecta com o meu trabalho. Estou muito feliz e muito satisfeita com o resultado.

MaisPB – Como foi regravar “Nenhuma Dor” 54 anos depois, lá do disco Gal Costa – Domingo ( seu disco com Caetano) 1967 e agora cantando com Zeca Veloso, o filho de Caetano?
Gal Costa – Essa gravação ficou muito bonita porque o Zeca tem um timbre de voz suave, que combina com a minha voz. A gravação ficou pura, límpida e foi muito gratificante ver o resultado. Ela acabou virando o nome do disco pelo próprio momento que estamos vivendo. A letra fala para seguirmos firmes na estrada. É o momento de ficarmos fortes que tudo vai passar.

MaisPB – A capa é a coisa mais bela, do artista plástico Omar Salomão, com colagens de fotos antigas. Vamos falar desse arte, dessa beleza?
Gal Costa – O Omar é um amor, um talento. Ele já havia feito o cenário do show “A Pele do Futuro” e o projeto gráfico do DVD desse show. Eu trabalhei muitas vezes com o pai dele, Waly Salomão, que foi uma pessoa bem importante na minha carreira. Marcus Preto, que produziu o álbum “A Pele do Futuro”, trouxe primeiro Omar como compositor – ele é o letrista da canção “Palavras do Corpo”, musicada por Silva. Depois, Marcus trouxe Omar pra fazer o cenário. Apostamos nele e, sinceramente, foi um dos cenários mais bonitos da minha carreira. Agora veio essa capa. Por causa da pandemia, Marcus Preto sugeriu de usarmos fotos antigas – o que evitaria uma sessão com um fotógrafo, uma equipe e alguma aglomeração. Omar pegou essas fotos lindas, algumas da Thereza Eugenia, que nos fotografou muitas vezes, e fez essa maravilha de capa. Eu adorei.

MaisPB – “Avarandado” você canta com Rodrigo Amarante e canção começa já embalada e depois fica suavemente. Vamos falar desse resgate?
Gal Costa – Eu gosto demais do Amarante, sempre disse que ele era o João Gilberto do rock. Foi uma delícia trabalhar com ele e eu gostei demais da produção que ele fez para essa música. Essa música é alegre, é fresca. Eu gosto demais dela.

MaisPB – Aliás, como foi se dando o repertório desses clássicos de “Nenhuma Dor”
Gal Costa – A ideia do projeto e os convidados me foram trazidas pelo Marcus Preto e eu recebi com muito amor. Eu já conhecia o trabalho de todos os convidados e achei ótimo cada sugestão porque eu gosto demais do trabalho de cada um. Cantar de novos essas músicas, muitas delas bem marcantes na minha carreira, foi especial. Cada um deles deu uma cara nova para a canção e isso foi muito positivo. Foi um trabalho bem democrático. O ponto central desse álbum era gravar com cantores homens que foram influenciados pelo meu canto, pelo meu trabalho. E eu fiquei muito emocionada com o resultado.

MaisPB – “Só louco”, você convidou Silva que é artista jovem e tem muito talento. E isso você já faz há muito tempo, quando convidou Zeca Baleiro para cantar no Acústico da MTV de 1997. Gal sempre valoriza novos talentos, não é?
Gal Costa – Claro. É importante os artistas de uma geração se conectarem com as outras. De certa forma, eu transmito o meu legado. Eu tenho uma grande influência de um homem, que é o João Gilberto. A estética do canto dele, a maneira como canta, sempre me atraiu muito. E é muito legal ver que esses artistas se inspiram em mim. O Silva tem um canto bem próximo e influenciado pelo meu trabalho.

MaisPB – “Paulo e Bebeto” ficou uma agitação, uma coisa linda com o novo arranjo. E aí você está com Criolo. Vamos falar dessa canção, de regravá-la em dueto?
Gal Costa – O arranjo dessa música foi uma das que eu mais gostei no disco. Criolo é de um talento único, eu já havia gravado uma música dele, “Dez Anjos”, no Estratosférica, em 2015.

MaisPB – Ficou alguma canção de fora ou a ideia era essa gravar dez sucessos?
Gal Costa – Ficaram várias canções de fora. A ideia inicial era regravar sucessos meus que não estavam nos dois shows mais recentes: Estratosférica e A Pele do Futuro. Tínhamos separado algumas outras, como “Vapor Barato” e “Folhetim”, dois clássicos do meu repertório de que eu gosto muito. Mas alguns convidados sugeririam outras canções, que para eles eram muito importantes, como o “Avarandado”, que fiz com Rodrigo Amarante, e o “Nenhuma Dor”, que fiz com Zeca Veloso. O repertório acabou pendendo mais para o Caetano. Mas isso não é um problema, já que Caetano é o compositor que mais escreveu canções para a minha voz.

MaisPB – Seu público hoje tem muitos jovens, além dos fãs de todos os tempos. Como você observa essa legião, a juventude que ama Gal, a voz de Gal, as canções de Gal?
Gal Costa – Meu público realmente rejuvenesceu muito, percebi isso pelas redes sociais e pelas pessoas que têm ido aos meus shows, um público mais jovem. Acho que uma música muito boa, com conteúdo, agrada sempre, qualquer faixa etária. Elas têm melodia, consistência e por isso são eternas. Eu fico feliz que a minha voz esteja passando por novas gerações. Eu trabalho ainda porque a música é muito importante tanto para o público quanto para a minha vitalidade. Eu tenho vontade sempre de ousar, é uma coisa de ímpeto mesmo, faz parte da minha personalidade. E acho que isso também ajuda a atrair o público mais jovem.

MaisPB – Como foi gravar “Pois É”, com o português Zambujo?
Gal Costa – Foi uma delícia. Talvez seja uma faixa que não tenha se sobressaído tanto quanto as outras, mas eu adro. O arranjo tem uma estranheza que, para mim, é a beleza da canção.

MaisPB – Seu disco sai nos formatos físicos: em CD, pela Biscoito Fino; e em vinil, pela Noize Record Club, uma prova de que apesar das plataformas digitais, ter o CD na mão ou o LP, é muito valoroso para os fãs e colecionadores?
Gal Costa – O impacto de uma canção, lançada sozinha, sempre vale muito. Quando a gente lançava os álbuns em vinil, sempre tinha uma ou duas faixas que se destacavam mais. Mas eu acho que o álbum físico, inteiro, continua sendo importante. Tem gente que acha que o vinil tem melhor sonoridade do que um CD ou streaming.

MaisPB – Depois que passar isso tudo vamos ter Gal Costa na Paraíba, novamente?
Gal Costa – Eu pretendo fazer uma turnê desse disco. Assim que tivermos todos vacinados e seguros, eu levo esse show para os palcos. Agora é mais importante cuidar de si e dos outros.

MaisPB – Como você tem visto o Brasil despencando. Como disse Caetano Veloso, teremos esperança?
Gal Costa – O que o atual governo faz com a arte, de banaliza-la, é horrível. É de uma ignorância e falta de consciência. Mas tenho a esperança de que dias melhores virão. A esperança move a humanidade.

MaisPB

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