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Entrevista MaisPB

Toquinho lança novo projeto e lembra carreira

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publicado em 28/11/2020 às 12h00
atualizado em 28/11/2020 às 16h17
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Kubitschek Pinheiro – MaisPB
Fotos – Marcos Hermes

Sempre em turnê pelo Brasil e pelo mundo, sem tempo para gravar um álbum, Toquinho foi compondo novas canções, sem maiores pretensões. Compor faz parte da sua rotina. As melodias foram enviadas para Paulo César Pinheiro que colocou letras que são poemas impares. Inclusive, Paulo Cesar canta na última faixa “Tudo de Novo”. O disco abre com a faixa-título “A Arte de Viver”: “A vida é um mistério/ Pra gente aprender/ Pois não tem critério/ E quem leva a sério/ Começa a morrer”.

Toquinho está com convidados especiais em “A Arte de Viver” – Maria Rita participa na ‘música de resposta’ “Papo Final”, que foi lançada anteriormente; Camilla Faustino canta em “Roda da Sorte” e “Rainha e Rei”. Hamilton de Holanda toca bandolim em “Amor Pequeno”. Há uma homenagem a Baden Powell na faixa “Mão de Orfeu”.

A busca pelo minimalismo evidencia o talento dos instrumentistas escalados. Além de Toquinho, Jorge Helder (contrabaixo), Paulão 7 Cordas (violão 7 cordas), Thiago da Serrinha (percussão), Thiago Silva (cavaquinho), Marcus Ribeiro (cello), Marlon Sette (trombone), Diogo Gomes (trompete), Felipe Pinaud (sax e flauta) e Apollo 9 (Harmonium, Saltério, Harpsichord, Cravo e Percussão), completam o time.

Um dos artistas que ajudaram a escrever a história da música brasileira, Toquinho é autor de grandes sucessos em parceria com Vinícius de Moraes (“Tarde em Itapuã”, “Carta ao Tom 74”), Chico Buarque (“Samba de Orly”) e Jorge Ben (“Que Maravilha”, “Carolina Carol Bela”) entre muitos outros, além de ser considerado um dos maiores violonistas do Brasil.

Excelente músico, compositor e intérprete que sabe muito bem unir técnica e sensibilidade, do popular ao erudito na sua aquarela de sons e harmonia. São 55 anos de carreira, com 90 discos gravados, mais de 500 composições e cerca de 8.500 shows no Brasil e Exterior.

A letra de “Fato Novo” detona geral – “Quanta notícia/ A cada instante tem um fato novo dando no jornal/Olha a polícia/ Levando o povo que manda em Brasília lá pra Federal/Mas que delícia/
Há quanto tempo não se via isso na Capital/ Só tem réu confesso/ Com muito processo/Enchendo o Supremo Tribunal/Só falta o Congresso/Entrar em recesso/ Por causa da ficha criminal”;

Em conversa com o MaisPB, Toquinho fala desse novo disco “Tudo de Novo” , dos convidados Hamilton de Holanda, Camila Faustino e Maria Rita, da homenagem a Baden Powell, da saudade imensa de Vinicius de Moraes, (Às vezes, ao me ouvir dedilhar improvisos, ele me alertava: “Toco, você acabou de deixar passar uma música”. Aí eu recuperava aquele acorde e surgia uma nova canção… ) Ao comentar sobre o Brasil em pandemia, ele disse: “Já estivemos em situações mais preocupantes. Sempre saímos delas”. Antonio Pecci Filho, o Toquinho, é um artista brasileiro.

Leia a nossa conversa

MaisPB – Esse disco nasceu durante as turnês? São novas canções, com letras de Paulo César Pinheiro?
Toquinho – Esse disco registra meu segundo trabalho com Paulo Cesar Pinheiro. Eu tinha uma série de melodias no baú e ele animado para trabalhar. Enviava para ele as melodias e ele retornava com as letras, completando a canção. Só nos encontramos no estúdio durante a gravação de “Tudo de novo”, em que ele participa.

MaisPB – Como é compor primeiro a melodia, para depois chegar às letras das composições?
Toquinho – É comum em meu processo de criação. Aconteceu também com outros parceiros, apenas que dessa vez o isolamento foi maior por causa da pandemia.

MaisPB – O disco abre com a faixa título “A Arte de Viver”, música é veloz como a vida. A letra é perfeita. Vamos falar dessa canção?
Toquinho – Ela reflete o enfrentamento que devemos ter com os desafios da vida. Não ter medo de prosseguir desvendando seus mistérios e aprendendo com eles, fazendo nos ver o mundo como um brinquedo a instigar nossa capacidade de passar por ele sem ranhuras.

MaisPB – A segunda faixa “Papo Final” você canta com Maria Rita. Como foi esse encontro de vozes, um belo samba?
Toquinho – Maria Rita é uma querida, canta tudo e com estilo próprio. Achava que faria um contraponto feminino perfeito na canção ‘Papo final” Ela topou e ficou lindo.

MaisPB – Bela a participação de Hamilton de Holanda em “Amor Pequeno”. Vamos comentar esse belo momento de sua voz com o cavaquinho de HH?
Toquinho – Hamilton de Holanda toca seu versátil bandolim em “Amor pequeno”. Assim que gravei essa música pensei que seria lindo umas frases do Hamilton, um cara com uma criatividade incrível, e adorei o resultado.

MaisPB – “Mão de Orfeu” ( a quarta feixa) é uma bela homenagem a Baden e seu violão, com citações de “Samba da Benção” e “Deixa” (Compostas por Baden Powell e Vinicius de Moraes) Lembra quando você conheceu Baden, naquele tempo, como diz a letra?
Toquinho – Baden foi meu ídolo em minha adolescência. Carrego em meu estilo muito do que ele fazia em seu violão. Depois vivi a emoção e o orgulho de dividir o palco com ele em várias oportunidades. Além do fato de ele ser um dos maiores e mais completos violonistas contemporâneos. Não podia deixar de homenageá-lo nesse trabalho feito com tanto bom gosto na música “Mão de Orfeu”.

MaisPB – “Roda da Sorte”, a sexta faixa você convidou Camila Faustino, que também está na faixa “Rainha e Rei”. Ela tem uma linda voz…
Toquinho – Camilla Faustino é minha parceira de palco há quatro anos, e canta comigo nesse disco as canções ‘Roda da sorte” e “Rainha e rei”. A participação dela sempre valoriza os espetáculos, e não menos nesse disco, pelo seu timbre vocal e por sua afinação.

MaisPB – Os excelentes instrumentistas escalados, Jorge Helder (contrabaixo), Paulão 7 Cordas (violão 7 cordas), Thiago da Serrinha (percussão), Thiago Silva (cavaquinho), Marcus Ribeiro (cello), Marlon Sette (trombone), Diogo Gomes (trompete), Felipe Pinaud (sax e flauta) e Apollo 9 (Harmonium, Saltério, Harpsichord, Cravo e Percussão), completam a beleza desse disco?
Toquinho – São músicos de primeira linha. Todos craques na execução e seus instrumentos. O disco merecia essa qualidade de talentos.

MaisPB “Fato Novo” (sexta faixa) mostra que os poderes estão arruinados e a batucada segue detonando. É uma canção que não vai sair da memória do povo brasileiro?
Toquinho – A letra é bastante atual. Pouca coisa muda nesse país quando se fala em política e políticos.

MaisPB – Como você definiria o poeta Vinicius de Moares seu parceiro de canções e palcos? Aliás, que falta faz Vinicius, né?
Toquinho – Dificilmente acontecerá em minha carreira uma parceria tão profícua e importante quanto aquela com Vinicius de Moraes, consolidada pela generosidade, pela compreensão das diferenças e pela troca de talentos. Enfim, trocamos vivências: eu passei para ele a experiência da juventude; ele me transmitiu a juventude da experiência. E nos completamos na música e na amizade. Nossa música, simplesmente sofisticada, aflorou e se consolidou em meio ao predomínio do Tropicalismo, e reacendeu nas pessoas os valores do samba de raiz. Além disso faço parte de uma geração privilegiada, herdeira da estrutura musical da Bossa Nova, que nos confere ainda, até hoje, a qualidade maior no cenário musical brasileiro. Nossa amizade extrapolou a relação profissional. Não se sabia mais quem era o filho, o pai, o neto ou o avô. Em muitos aspectos, Vinicius era muito mais jovem do que eu. Para nós, trabalhar as canções passou a ser uma séria brincadeira. Era um prazer redobrado curtir os acordes que surgiam, procurar a palavra adequada. Vinicius era um grande músico, tinha um ouvido interno aguçado. Às vezes, ao me ouvir dedilhar improvisos, ele me alertava: “Toco, você acabou de deixar passar uma música”. Aí eu recuperava aquele acorde e surgia uma nova canção… Para nós, a vida estava sempre antes da arte. Viver o cotidiano sempre foi a fonte principal de nossa inspiração. E somente uma grande amizade propicia essa ventura.

MaisPB – Há alguns dias entrevistamos Tiê para o MaisPB, que fez elogios imensos a você, que aprendeu muito em sua companhia. Como Toquinho vê o trabalho dessa cantora paulista?
Toquinho – Tiê é uma cantora de muito talento. Quando a conheci logo percebi que poderia valorizar minhas apresentações com sua presença dividindo o palco comigo. Além disso, ela tem um trabalho solo que comprova tudo isso.

MaisPB – A capa do álbum é um belo desenho de Elifas Andreato e Luis A. Mielle. Lhe agradou muito?
Toquinho – Elifas produziu capas de LPs geniais durante minha parceria com Vinícius de Moraes A criatividade de Elifas é atemporal, perdurará sempre. Esse disco merece o requinte de sua criatividade.

MaisPB – Ficou ótimo a voz de Paulo Cesar Pinheiro em “Tudo de novo”. Vamos falar da participação dele?
Toquinho – Paulo Cesar é um dos grandes poetas da música popular brasileira, com estilo próprio, diversificado e objetivo. Acima de tudo, confiável. Aquele para quem você manda a melodia e sabe que vem tudo certo, na métrica, no ajuste das palavras à melodia e na temática inteligente e variada. Eu ia mandando as melodias e ele me devolvia com a letra exata. Durante o processo criativo, não nos vimos, só no estúdio de gravação, e ele teve uma participação cantando na música “Tudo de novo”.

MaisPB – Tem feitos lives?
Toquinho – É a fórmula atual de estar “perto” do público.

MaisPB – Como Toquinho tem visto o Brasil na atual situação em que estamos vivendo?
Toquinho – Já estivemos em situações mais preocupantes. Sempre saímos delas.

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