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Professora Emérita da UFPB e membro da Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba (AFLAP]. E-mail: reginabotto@gmail.com

O professor – mais um herói na pandemia

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publicado em 24/08/2020 às 07h00
atualizado em 23/08/2020 às 16h07
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Com a civilização, o homem sentiu necessidade de institucionalizar o saber e o conhecimento, criou espaços, escolas, tecnologias e instituições para as novas gerações. No mundo pós-moderno o ensinar, o aprender e o saber tornaram-se um desafio para quem se propõe ser professor ou professora. Isto em virtude do volume de informações e tecnologias na comunicação, que influenciam mudanças no setor educativo e cultural, desafiando a capacidade humana de captar e construir o conhecimento acadêmico. Nesse contexto, surgiu a sala de aula, lócus de construção do saber e do conhecimento. Espaço político, social e pedagógico, seja ele físico ou virtual. Cada tempo e lugar com suas peculiaridades. Haja visto esse tempo de agora com a pandemia, que foge às regras e procedimentos metodológicos antes utilizados.

O professor é o catalizador da aprendizagem e o sabedor do sábio conhecimento, apto a realizar a transposição didática. Ele abstrai do conhecimento científico o saber elaborado de uma teoria, de um fato social ou um fenômeno, de um conhecimento, de uma lei, construído com linguagem epistemológica e erudita para torná-lo mais simples e objetivo, à luz de uma nova linguagem sem, contudo, perder a essência cientifica que o originou. Torna-se mais atrativo e interessante ao estudante que se dispõe a aprendê-lo. Exemplo: Trabalhar o conceito físico de força, peso etc. O professor é a figura central do processo de ensino – aprendizagem. De um lado, está quem ensina e, do outro, quem aprende e, intermediando esta relação pedagógica, encontra-se o conteúdo a ser aprendido. Saber ensinar não é transferir conhecimento mas criar possibilidades para a própria produção ou sua construção. A transposição didática em situação normal não é fácil de se fazer. Imaginem nessa contingência de pandemia que as aulas são virtuais, necessitando ao docente analisar e inter-relacionar os conteúdos, dando condições ao seu aprendizado. Isto sem desconsiderar a genuinidade que lhe deu origem e os princípios científicos, sociais e culturais com que foram elaborados. O conhecimento cientifico, o escolar e o espontâneo ou empírico de que o aluno é possuidor e traz consigo numa sala de aula, se fundem em um só momento, chamado momento didático, com o objetivo de formar o sujeito histórico, crítico e criativo

Conheço uma professora que fez o relato de como estão suas atividades didáticas nesse momento. Disse-me: este tempo para mim está sendo de aprendizado pedagógico. Um desafio que nós não esperávamos, dar aulas on line para crianças de 5, 6 e 8, 10 anos de idade e conseguir segurá-las em uma tela de computador, não está sendo fácil. Acrescenta: nós professores estamos nos adaptando a uma modernidade que não existia.

Outra amiga, que tem dois filhos pequenos, expressou para mim: “acho que os mestres nessa pandemia são os heróis da educação, digo porque acompanho meus filhos e vejo o empenho dos professores e professoras nas diversas matérias em querer que eles aprendam. A professora de minha filha disse-me uma coisa, que me deixou pensativa: “Está muito difícil para mim nesse momento. Quando estou numa sala de aula presencial eu consigo identificar com um olhar, com um gesto e observo se o aluno está prestando atenção, se conseguiu entender o assunto? Etc. Na tela do computador como isso é possível? Não consigo essa interação, por mais que me esforce, não a atinjo. E disse mais: é muito laborioso e complicado.” Tanto que digo que eles são uns heróis dessa pandemia. Afinal lidam com crianças que necessitam de atenção e cuidados no sentido do aprendizado. Isto é feito à distância. Eu acho que essas aulas, claro, nunca vão ser a mesma coisa. Eu tenho certeza que nesse ano de pandemia 100% do aprendizado de Rebeka, deve-se também ao nosso empenho como pais. Se não fôssemos nós em casa dando esse reforço, incentivando, ajudando nas tarefas, o rendimento dela seria mínimo. Observo que os alunos que não tiveram essa complementação em casa, o aproveitamento quando muito é 20%. Verifico que os docentes estão inquietos, procurando dar o melhor de si, tentando se adequar a essa nova modernidade.” Ter o olhar no outro…Não importa se é um professor da Educação Infantil, do Fundamental ou do Ensino Médio, qualquer um deles sabe que é preciso conhecer e reconhecer o contexto de cada aluno, suas necessidades e seu repertório de vida.

Nesse tempo de excepcionalidade gerado pela pandemia da covid-19, ficaram mais transparentes as desigualdades estruturais. O futuro ainda é incerto e, segundo as publicações, metade dos estudantes no planeta estão sem acesso aos conteúdos, online, disponibilizados pelas instituições educacionais. A estatística da Unesco, de abril, aponta que 1,5 bilhão de crianças e adolescentes estão fora da escola em 188 países, em função das regras de isolamento social impostas para conter o avanço da disseminação do vírus. No Brasil, são mais de 4.8 milhões de crianças e adolescentes sem internet em casa, ou 17% do total entre quem tem de 9 e 17 anos, segundo a Unicef, sem as ferramentas para buscar os conteúdos. Não há perspectivas de volta às aulas.

Por que falar do professor na pandemia? Porque o perfil do docente nesta época de COVID 19 não é o mesmo. Requer atributos que não se incorporaram em sua formação acadêmica. A todo momento são desafiados. O que foi que aconteceu com a educação? Fomos pegos de surpresa: não só os professores, mas as instituições de ensino, seus currículos e procedimentos metodológicos. Tudo teve de ser refeito de forma rápida. Nos estabelecimentos de ensino que já adotavam as novas tecnologias as adaptações não foram tão sentidas, mas naqueles que não as utilizavam, as adequações foram feitas com muitas hesitações, apuros e transpondo obstáculos. O que se verifica agora: alto índice de evasão escolar. Por conta das tarefas a executarem as crianças deixam de brincar e de serem crianças.

Conheço uma criança de 5 anos que estuda em uma escola de metodologia estrangeira onde se adota o inglês. Nesse período as aulas são todas “on line.” A menina cumpre o horário de costume, veste-se com a farda do colégio, coloca-se frente ao tablet e assiste aulas com outras de sua turma e a docente. O interessante é que interage com a professora e com os colegas. Depois são passadas as tarefas como dever de casa que são feitas com adultos. Os pais dão um suporte logístico, sem o qual seria difícil caminhar. A aprendizagem se desenvolve.

Constata-se, diante da realidade brasileira, que as escolas públicas, em casos raros, podem realizar o acompanhamento de seus alunos utilizando as redes da internet durante o isolamento. As dificuldades são grandes para dar continuidade ao processo educativo, porque haveriam de contar com a ajuda de familiares que nem sempre estão preparados e nem dispõem de tempo para realizar a assistência que o aluno necessita. A problemática não nasceu agora. Todavia, tornou-se mais evidente. Como levar em conta as peculiaridade de cada discente e a realidade de sua família? Esta situação torna as diferenças ainda mais transparentes.

Estamos desenhando as dificuldades do aprendizado mas, do outro lado, também o professor sofre e se angustia porque desconhece as novas tecnologias cibernéticas e não sabe utilizá-las na transposição didática do conteúdo. Sem dúvida, o professor é a grande vítima pois tem que desenvolver uma prática para qual em sua maioria não está apto. Cursos aligeirados de treinamento estão sendo ministrados, porém ainda são insuficientes para permitir a rápida integração do professor. Este se esforça para dar o melhor de si. Não se sente confortável. Em nível de governo, constata-se a desvalorização e não reconhecimento da sua importância para a sociedade. Pesquisa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), aponta que os professores brasileiros são os que recebem os piores salários em um universo de 48 países avaliados. Esta problemática serve de alerta para se investir intensamente na formação do professor e manter programas de atualização continuada. Estabelecer políticas públicas nas diversas esferas de governo federal, estadual e municipal. Miguel Thompson, que é diretor na Fundação Santillana, consultor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento das Nações (PNUD) e um dos idealizadores da Bancada da Educação em São Paulo, indica o WhatsApp como um dos caminhos para solucionar, em parte, a lacuna tecnológica dos alunos no país. “O Brasil tem muito acesso pelo celular. As Secretarias Estaduais de Educação poderiam fazer negociações de pacotes de dados gratuitos, assim como foi feito em São Paulo. Outro caminho seria desenvolver uma ação integrada entre diferentes mídias como rádio, televisão, redes sociais, todas em conjunto para chegar aos estudantes com essas atividades”.

Cada país está adotando providências para sanar os problemas da educação. Na Universidade de Cambridge, da Inglaterra, todas aulas serão integralmente online até a metade de 2021. A Argentina, por sua vez, decidiu suspender qualquer tipo de avaliação neste ano e focar na avaliação formativa, e por aí vai. O Brasil o que irá fazer?

Como professora, quero solidarizar-me com os docentes de todos os níveis, por entender que o exercício do magistério é muito mais do que dar aulas, aplicar e corrigir provas. Exige muito esforço, preparo, conhecimento, pesquisa, tempo de dedicação e requer compromisso e comprometimento em fazer o outro crescer, mostrar caminhos, dar as mãos, enfim empregar amor no que faz. Portanto, precisam ser reconhecidos, valorizados, bem pagos e ter condições financeiras, físicas e psicológicas para se manterem atualizados. Será que agora, com esse quadro apresentado, o governo adotará novas políticas para reverter a situação e mudarmos a educação no país?

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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