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ENTREVISTA MAISPB

Hamilton de Holanda e João Bosco: casamento do violão com o bandolim

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publicado em 18/07/2020 às 13h02
atualizado em 18/07/2020 às 15h01
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reportagem: Kubitschek Pinheiro – MaisPB

“Canto da Praya” é o nome do novo disco do bandolinista Hamilton de Holanda e João Bosco Ao Vivo com selo da Deck. Já está nas plataformas digitais. Trata-se de projeto de Hamilton (o primeiro de uma série) ocorrido no final de 2019, em São Paulo, no estúdio DaPáVirada. O repertório, que traz clássicos de João e algumas releituras, veio basicamente do show “Eu Vou Pro Samba”, que eles apresentaram em algumas ocasiões.

“Esse primeiro momento começou em outubro do ano passado e também já gravei com Mestrinho ( Sanfoneiro). A ideia é gravar com outros artistas, mas só vamos fazer isso quando tudo passar. Lançamos aos poucos para dar um a sobreviva ao projeto”, diz Hamilton em entrevista ao MaisPB.

Segundo Hamilton, o Projeto Canto da Praya, que é uma parceria com dele com Marcos Portinari, é destinado a fazer shows dentro de um estúdio (existem vários vídeos desse disco e dele com Mestrinho no Youtube). “Com as pessoas a nossa volta (80 participaram), essa troca de olhares com as pessoas que estão nos assistindo é fundamental”, lembrou Hamilton.

Na verdade “Canto da Praya” foi gravado numa sala grande do estúdio, som sofás, para as pessoas ficaram bem aconchegadas. “Os vídeos ficaram prontos antes e foram sendo jogados no Youtube. Foi muito bonito”, arrematou Hamilton. “Foi um momento muito bom, pouca gente, e estava lá o jornalista Zuza Homem de Melo”, emendou João Bosco.

“Eu já tinha participado do DVD de João Bosco, ´Obrigado gente!´, quando ele fez 60 anos. E ficamos muito amigos e começamos a tocar por aí. Há uns três anos nos reunimos e fizemos vários shows no projeto Eu Vou Para o Samba. Não só o samba, mas a questão da crônica, que tem a ver com a nossa história. O João (Bosco) tem essa parceria luminosa com Aldir Blanc. Veja bem: nesse Canto da Praya tem duas músicas que nunca tínhamos tocado, Gagabirô e Angela de Tom Jobim, que não são exatamente sambas, mas tem um parentesco. Eu acho que nesse CD tem muita coisa do coração, mesmo, sabe”, diz HH.

“Olha, a gente já tinha feito alguns shows juntos em duo. Nós temos um repertório muito grande e o Hamilton é um músico extraordinário. Ele deu uma extensão ao bandolim que não existia no Brasil. O instrumento na mão dele tem uma força muito grande. Hamilton consegue tocar vários tipos de estilo de música. Ele se adapta muito bem a qualquer gênero musical, consegue colocar o instrumento em sintonia com o que ele está tocando. Ele me convidou para fazer esse disco e eu topei da hora”.

O álbum Canto da Praya apresenta repertório de João Bosco, mas não totalmente restrito à obra do compositor. Está lá o samba Chega de saudade (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1958), e figura no repertório do disco ao lado de músicas como Incompatibilidade de Gênios (João Bosco e Aldir Blanc, 1976), Tiro de Misericórdia (João Bosco e Aldir Blanc, 1977), Nação (João Bosco, Aldir Blanc e Paulo Emílio, 1982), Gagabirô (João Bosco, 1984) e Sinhá (João Bosco e Chico Buarque, 2011).

Todas as canções receberam novos arranjos para o formato de duo, valorizando a interação do bandolim (de dez cordas) de Hamilton de Holanda com o violão peculiar de João Bosco, sendo que o cantor que também dá voz a esse repertório quase todo autoral.

A capa do disco é detalhe à parte. Hamilton conta: “Rapaz, eu recebi esse desenho, achei muito bom. Veio lá do pessoa da Cervejeira da Praya que é nosso parceiro nesse trabalho e no projeto. Eles são bem ligados em designer. Foi uma indicação e nós acatamos na hora”.

“Eu gosto de cantar, também. Na verdade o canto é o primeiro instrumento. Com João Bosco eu faço alguns vocais. Nesse encontro do bandolim com o violão, nós conseguimos encaixar nossa engrenagem de mão direita e preenche o salão. É uma mistura de levados rítmicos. É muito gostoso tocar com João (Bosco). Ele já tem uma coisa africana, árabe, incrível”.

“Eu fico na verdade quase como espectador, fico vendo e curtindo o que ele está fazendo e colocando minhas bandolinadas para complementar a música e dar um sabor especial”.

A dupla abre o disco com Sinhá, que tem letra de Chico Buarque e melodia de João Bosco, que foi gravado primeiro por Chico (no CD com o nome do artista de 2011). e depois por João Bosco, no álbum “Mano que Zuera” de 2018.
A ideia de incluir Sinhá, foi sua Hamilton? “Foi, eu sugeri. É linda essa canção. Eu me lembro quando foi lançada num vídeo ao vivo que eles fizeram na Internet. Acho que foi em 2012. Eu fiquei encantando, tirei a música e gravei ela. Acho que eu sou o primeiro a gravar Sinhá ( instrumental com certeza), e quando eu vi, pensei: poxa essa música já existe? Ela nasceu clássica. Tem uma imagem crua, o som do bandolim com o violão ficou muito bonito”.

“Foi ele sim. Eu fiz uma versão africana, mas caboverdeana, no estilo da Cesaria Evora, só com instrumentos de corda, viola, violão, bandolim” disse João Bosco. Hamilton gravou no meu DVD “Obrigado, gente” a canção Linha de Passe. “Também gravarmos Gagabirô”, disse João Bosco.

A canção de “Angela” de Jobim, surge inesperada no disco. “Essa música a gente nunca tinha tocado. Eu gosto muito e ele já tocava, mas nunca tocamos juntos. Ele que teve a ideia. E a mulher dele chama-se Angela, Acabou sendo uma homenagem para ela, que estava lá nos assistindo no dia da gravação. É uma canção que tem uma harmonia diferente. Ela tem uma tristeza e tem uma cara de música do final dos anos 70. Caiu super bem no disco”, pontua Hamilton.

“Eu gostei muito. E temos também Chega de saudade ( de Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1958)). Angela é canção muita bonita e eu nunca consegui fazer uma homenagem a minha mulher Ângela, porque essa canção de Jobim chega na frente. Eu sempre toco dedicada a ela, é como se eu me apropriasse dessa canção“, comentou JB.

Você está feliz, João Bosco? “Sim, esse disco me deixou muito assim, o Hamilton é muito bom, repito. O Bandolim é muito delicado, ligado ao choro brasileiro, a música brasileira. O Jacob (do Bandolim ) deixou uma marca muito importante”, fecha João Bosco.

E a pandemia? “Vamos esperar que a Ciência possa nos salvar com alguma vacina, para que possamos retomar a vida. Não há outro caminho”, lembrou João.

“Tudo vai melhorar, devemos acompanhar o tempo e o que virá por aí”, falou Hamilton
Será vamos ter uma Live de João Bosco e Hamilton com esse disco? “Sim, vamos combinar isso”, fechou João Bosco.

Aldir Blanc e Incompatibilidade de Gênios

“Aldir estava com uma música minha para colocar uma letra, mas acabou não dando tempo. Perder Aldir que era tão significativo, ligado a ao pais da redemocratização também. A música da volta do irmão do Henfil é um marco. Foi muito triste ele morrer com Covid. Eu até fiz uma homenagem a ele, gravei no meu Instagram a canção Resposta ao Tempo, que ele fez com Cristóvão Bastos”.

“Eu conheci Aldir (Blanc ) há 50 anos, no inicio dos anos 70. Muito tempo de amizade, afinidade. A gente se falou até uma semana antes dele se internar. É uma perda muito grande. A vida é isso mesmo, é uma sucessão de perdas. E precisamos nos acostumar a isso. O Aldir dizia que quando a gente cai, comete um tropeção, uma topada. Ele dizia toca pra frente. Caiu, tropeçar e seguir em frente”.

A terceira faixa do disco é Incompatibilidade de Gênios, uma canção que foi gravada por Clementina de Jesus e Caetano Veloso. “Quem gravou também foi Cesar Camargo Mariano”, disse Segundo João Bosco ele já gravou uma infinidade de vezes. “Já gravei com outros músicos fora do Brasil. Tenho registro dessa canção com Lee Ritenour, com David Grusin e Marcus Miller, este, trabalhou muito com Miles Davis”.

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