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ENTREVISTA

Isolado em SP, pintor paraibano Sérgio Lucena cria novas obras na quarentena

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publicado em 01/06/2020 às 16h52
atualizado em 01/06/2020 às 16h52
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Há quase 18 anos radicado em São Paulo, bem próximo a sua maioridade paulistana, o pintor paraibano Sérgio Lucena, que tem trabalhos espalhados pelo mundo está trabalhado todos os dias na construção de nova Mostra, que será vista pelo público, quando passar essa pandemia e a vida cultural volte da maior cidade do Brasil, volte a sua normalidade. Em entrevista ao MAISPB, o artista fala do isolamento social, da guerra biológica, do governo, de uma nova sociedade e seus valores e da prática racismo nos EUA no Brasil. Leiam a entrevista.

1 – O que Sergio Lucena tem produzido nessa pandemia?

R – Isolamento não é algo estranho a atividade de um pintor, vivo em quarentena há quarenta anos. Entretanto, mais que nunca vivencio o meu entorno. A tragédia que acontece com o mundo e, em especial com o nosso país, onde a pandemia é acrescida da estupidez de um governo negacionista e obscurantista, me afeta profundamente. Surpreende-me como a pintura se levanta como uma reação em favor da vida e da luz, esses dias o trabalho se intensificou muito. Estou com uma exposição praticamente pronta, vou apresentar esse trabalho assim que seja possível como meu testemunho de resistência a esses tempos de escuridão e brutalidade.

2 – Quando foi sua última exposição em São Paulo ou fora do pais?

R – SILENTE, foi a minha última exposição individual em São Paulo em 2017, na galeria Eduardo Fernandes. Nos EUA, apresentei em 2018 a mostra COMMOM PLACE, na Mariane Ibrahim Gallery.

4 – Como está São Paulo a olho nu, nessa guerra biológica?

R – O Estado de São Paulo assumiu conduzir a situação baseado na ciência, em contraposição a orientação irresponsável do governo federal, notadamente expressa pelo presidente da república. Não tem sido fácil, mas, não tenho dúvidas que estaríamos em uma situação muito pior se a ciência não fosse o fator determinante da política sanitária.

5 -Você tem saído de casa?

R – Todos os dias saio com máscara e caminho ao meu ateliê, que fica a dois quilômetros de casa. Sou um privilegiado em poder trabalhar, tendo condições nesse momento de seguir a vida..

6 – Como será o mundo depois que toda essa desorganização passar?

R – Embora havendo insistência em retomar as coisas nos termos de antes da pandemia, nada será como antes. Ficou claro a insustentabilidade desse modelo, a infalibilidade desse sistema. Por mais que se queira voltar ao que era, uma dúvida se instalou em relação as certezas do mundo que tínhamos até então. Há muito que assisto o mundo caminhar para um colapso, o planeta não dá conta de suprir a ganância insaciável do sistema de produção e consumo de massa, me surpreendeu porem, a forma como o colapso se deu. O que prova que a natureza e a vida atuam numa esfera muito além da nossa racionalidade.

7 – Tem lido um bom livro?

R – Sempre, estou acabando “Honra Teu Pai”, do Gay Talese.

8 – Quando você acha que as galerias de arte de São Paulo voltarão a promover vernissages?

Não faço ideia, porém, creio que o próprio sistema de arte deva se reinventar. Tenho buscado manter a mente aberta para o desconhecido. Acredito piamente que o mundo só sairá do caos que se encontra quando abdicar do modelo conhecido e deixar que algo novo surja. Uma nova sociedade baseada numa outra ordem de valores, uma que nos inclua novamente como parte da natureza.

9 – Como artista e cidadão, como você avalia o ódio instalado no mundo, com policiais brancos matando negros?

R – Isso não é novo, nem nos EUA tampouco no Brasil, e é justo esse mundo doente que está colapsando. Ao negarmos a natureza como nossa origem ficamos livres para destruí-la, porém, como consequência negamos a nós mesmos, logo, negar e destruir o outro se dá como desdobramento dessa alienação. Para mim a violência é o sinal da agonia, o estertor de um mundo velho e decadente. É hora portanto de resistir de forma propositiva. É hora de tomar posição pela vida e pelos valores humanos fundamentais. Mais que nunca é hora de amar o próximo como a si mesmo. E jamais se submeter ao medo ou se acovardar frente ao ódio.

Kubitschek Pinheiro – MaisPB

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