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José Nunes da Costa nasceu em 17 de março de 1954, em Serraria-PB, filho de José Pedro da Costa e Angélica Nunes da Costa. Diácono, jornalista, cronista, poeta e romancista, integra a Academia Paraibana de Letras, o Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, a União Brasileira de Escritores-Paraíba e a Associação Paraibana de Imprensa. Tem vários livros publicados. Escreveu biografias de personalidades políticas, culturais e religiosas da Paraíba.

Minhas madrinhas  

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publicado em 02/06/2026 ás 20h11
 
José Nunes
Recordo, tantos anos depois, a ansiedade que tive ao rever a madrinha que testemunhou do meu Batismo, em maio de 1954, na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Serraria. A emoção naquela manhã de domingo tomou conta de nós dois. Relembramos tantas coisas familiares. Lembranças reencontradas na memória afetiva do menino sambudo que corria pelo terreiro em cavalo de pau em corrida de argolinhas.
Madrinha Rita Floriano viveu no sítio Tapuio durante muitos anos e conheceu as paisagens de famílias residentes nos arredores. Gente envolvida na produção de café e no cultivo de canaviais que cobriam as terras de Serraria.
Foi gratificante este reencontro de dez anos atrás, selado com demorado abraço, seguido de um “Deus te abençoe”. Durante a conversa, sabendo de minhas andanças pelos livros e a tentativa de escrever sobre nossa gente, madrinha repetia um “Deus seja louvado”.
         O mesmo “Deus te abençoe” que repetia no tempo em que morávamos nos arredores de Serraria, na época quando retirávamos da terra nosso sustento.
         Junto à minha madrinha, renovei a presença de mamãe abençoando os doze filhos, no agasalho da noite, acomodados no quarto e nas redes espalhadas pela sala. O “Deus te abençoe” era repetido ao pedido de “benção mãe”, reproduzido como ladainha.
Mamãe abençoava a todos, e no íntimo desejava que fossemos “gente na vida”. Essa expressão significava crescer com dignidade, aprender as lições do bem viver, do partilhar e do fazer amigos.
         Sem deixar as lembranças anuviar, penitenciei-me pela ausência de tantos anos, e quase me prostrei de joelho ao chão frio diante daquela que se tornou mãe espiritual. Algumas décadas ficamos distantes, mesmo que as lembranças não tenham desaparecido.
         Prima de meu pai, madrinha Rita carregava consigo a marca da mesma paisagem onde nascemos e crescemos. Foi contemporânea de meus pais e tios. Conviveu com meus avôs, formando uma irmandade que a necessidade tornava unida. Testemunhou momentos marcantes na comunidade de Serraria, algumas revelações culturais que vão desaparecendo.
         Foi nosso último encontro. Madrinha Rita Floriano fez sua passagem ao mundo desconhecido, levando consigo as lições da terra que nos criou.
         Desde então, busco rememorar os momentos transformados em imagens adormecidas, para reconstruir o passado que não conheci, tão rico para nossa família.
         Mais de uma década depois do encontro com minha madrinha em sua casa, a mesma sensação de outrora se repetia. Era como estivesse em nossa casa no sítio Tapuio, de muitas lembranças, mesmo que algumas tenham sido tormentosas.
O passado retornou no abraço da minha madrinha. Abraço que renovo no pensamento para manter viva a memória de minha infância, a história de nossa gente.
         Recordo-me de suas palavras que ajudam fixar passagens cheias de afeto junto aos meus pais, sobretudo a minha mãe, quando esta estava para dar à luz a uma criança. Meses antes do parto de mamãe, acontecia a castração dos frangos que ficavam confinados no galinheiro.
Madrinha Rita cuidava de mamãe, durante os oito dias de resguardo, em repouso absoluto na cama, se alimentando de comida a base de pirão de capão cevado.
         Eu tenho um carinho especial por minhas quatro madrinhas. Foram elas: Severina Branco, de Batismo; Rita Floriano, de apresentação à Nossa Senhora; e Maria Neco, de Crisma. Nair Guiné foi madrinha de fogueira em Dia de São João.
         Quando falei do desejo de ser afilhado de Nair, esposa de Manso Guiné, mamãe falou que, como ela já era sua comadre, se tornaria compreensivo.
         Queria me redimir de uma trela: dizendo que mamãe estava com dores de parto, chamava Nair às pressas. Não era verdade. Repreendido, as palavras de minha mãe foram um muxição na consciência, mesmo com o pedido de desculpas.
         As madrinhas tiveram uma participação inesquecível na minha formação de cristão.
         Um dia eu estava com essa tristeza de criança, então fui para perto de minha madrinha Rita. Amaciando minha cabeça com mãos de fada, fez-me emergir na calma e adormecer com a cabeça recostada no seu colo.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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