João Pessoa, 31 de maio de 2026 | --° / --° | USD · EUR


A Prefeitura Municipal de João Pessoa desenvolve um projeto do Programa de Apoio ao Estudante em parceria com a Escola do Teatro Bolshoi no Brasil (PMJP/SEDEC), sediada na cidade de Joinville, Santa Catarina. Caso de sucesso internacional, teve início em 2003. Logo em 2004 o projeto foi suspenso e somente retomado em 2021 e permanece até os dias atuais. Faço esse acompanhamento através da amizade que tenho com a sua Coordenadora Geral, Fernanda Antônia Albuquerque de Melo, que emprega todo o esforço e denodo para levar o projeto adiante, proporcionando todo apoio logístico com compromisso e competência para que ele aconteça. Para isto conta com o apoio da Secretaria da Educação, através do Setor responsável: DEFISE – Divisão de Educação Física, e Desporto Escolar. O objetivo do projeto é despertar o interesse pela dança clássica; visa a formação artístico-profissional da dança; contribuir na educação de cidadãos mais conscientes e completos, selecionados da rede municipal de ensino em João Pessoa; oportunizar a estudarem na Escola do Teatro Bolshoi no Brasil.
Os alunos das 106 escolas municipais de João Pessoa que desejem ingressar na Escola Bolshoi – Brasil se submetem a um processo seletivo de três fases: Na primeira, seleção geral, a equipe de avaliadores locais visita todas as escolas e avaliam meninas de 8 a 10 anos e meninos de 9 a 11 anos; A segunda fase: acontece com três representantes da Escola Bolshoi vindos a João Pessoa para selecionar 20 alunos; A terceira; ocorre nacionalmente, em Joinville, onde os 20 alunos aqui selecionados irão competir com outras crianças de todo o Brasil. Os aprovados iniciam o estudo na Escola Bolshoi no ano seguinte. De acordo com o histórico seletivo do projeto, identificamos: em 2021; a 1ª fase 457 crianças avaliadas, 2ª fase: 350 crianças classificadas; 3ª fase: 20 crianças selecionadas para o nacional. 5 crianças aprovadas, 4 meninos e 1 menina. Esse ano mostrou-se atípico, com poucos alunos participando em virtude da pandemia. No ano de 2022: 1ª fase: 1173 crianças avaliadas; 2ªfase: 600 crianças classificadas; 3ª fase: 20 crianças para seleção nacional; 10 meninos aprovados. No ano 2023: 1ª fase: 1649 crianças avaliadas; 2ª fase: 703 crianças classificadas; 3ª fase: 20 crianças na seleção nacional: 3 crianças aprovadas; 2 meninos e 1 menina. No ano 2024: 1ª fase: 1744 crianças avaliadas; 2ª fase: 770 crianças classificadas; 3ª fase: 23 crianças para seleção nacional: 3 meninos aprovados. No ano 2025: 1ª fase: 1400 crianças avaliadas; 2ª fase: 500 crianças classificadas; 3ª fase: 20 crianças para seleção nacional; 05 meninos provados. Pode-se constatar como é rigoroso o processo seletivo, pois requer vários pré-requisitos físicos, de saúde, psíquicos, além da demonstração de aptidões para o balé.
Fiz todo esse introdutório para situar a história de uma criança que no meio de tantas outras merece um destaque singular. Como ele, existem centenas, nascidas no meio humilde onde as pequenas coisas faltam para satisfazer as suas necessidades básicas, e não têm a quem recorrer. Encontram-se inseridas na camada da estratificação social da base da pirâmide, onde a sociedade as tornou excludentes, isto por várias razões sociais, econômicas, educacionais e culturais, cujo propósito não é discuti-las nesse contexto.
Vou falar do menino Kaio Gabriel Basílio da Luz. Vem de uma família cujos pais são separados. Residia com a mãe e a irmã e estudava na Escola Municipal José Eugênio Lins de Albuquerque. Sua mãe, para manter o sustento da casa, vendia pasteis numa lojinha. Kaio submeteu-se ao processo seletivo para a Escola Bolshoi no ano de 2021 onde começou a estudar em 2022. Encontra-se no 5º ano da formação do Bolshoi. Já no processo seletivo, fala a coordenadora do projeto que Kaio, dizia: “Eu quero ser um bailarino”. Foi um menino sempre autodidata pois por ele mesmo fazia movimentos ligados ao balé. Isto aprendeu vendo vídeos, televisão etc. Embora que isso não fosse exigência do Bolshoi, pois as crianças que participam da seleção não precisam ter experiência com dança”. Ainda diz que percebeu que quando foi aprovado o receio que ele externava era ter a aprovação dos avós, pois apesar dos pais separados ele tinha convivência com os avós paternos, e seu avô não aprovava menino fazer dança por preconceito com a profissão de bailarino. Diz Fernanda: “Kaio hoje mostrou para sua família que tem condições de fazer dança e exibe muito talento e eles passaram a aceitar, superando todas as dificuldades”. Acrescenta ainda: “ Kaio é um menino que aonde chega ele encanta a todo mundo, tem um carisma peculiar de falar, de pedir, de se apresentar com jeito meigo e amigo. Chama atenção nas Escolas tanto a do balé, quanto a do ensino regular fundamental. É querido pelos colegas e professores”. São as suas qualidades ditas por quem o conhece que é uma criança carinhosa, atenciosa. Ele, a quem encontra, elogia sempre, tem uma palavra que procura agradar, isto é observado pelos docentes que mencionam esse seu comportamento independentemente da idade, ele conquista as pessoas. Apresenta um coração muito generoso, sensível e se emociona com alguém que esteja triste ou passando por uma dificuldade; mostra-se solidário na dor. E está sempre pronto em querer ajudar. Fernanda fala: “quando eu viajei com ele para a seleção nacional constatei que ele era muito inteligente e tinha a humildade, um jeito especial, todo seu, de falar e de dizer. Um fato ocorreu no aeroporto de Recife me chamou atenção; estando com um grupo de crianças e de repente chega Kaio com um chocolate, eu perguntei: De onde você tirou isso? Ele disse foi a tia que me deu. Eu fui até a lanchonete perguntar. Chegando, abordei a vendedora que foi logo dizendo: “Kaio esteve aqui e eu dei para ele o chocolate. Ele pediu, disse eu? “Não, ele externou que era um sonho dele comer um. E eu desejei boa sorte na seleção. E, se passasse, toda vez que viajasse viesse me ver”. E assim Kaio faz toda vez a visita e recebe um chocolate”.
Fernanda, fazendo uma avaliação de Kaio, diz: “Hoje vendo Kaio verifico que evoluiu muito. No primeiro ano do curso foi identificado que ele tinha uma deficiência de aprendizado (TDAH ou TDH). Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade. É uma condição neurológica de origem genética, caracterizada principalmente por dificuldades em manter o foco, agitação motora (hiperatividade) e impulsividade. Os docentes e as pessoas que cuidavam dele não sabiam dizer o que era. Ex: Ele assistia a aula e não lembrava e não fixava o conteúdo do aprendizado”. Esquecia sua bolsa e não sabia onde a havia colocado, e por aí vai…. O núcleo de saúde do Bolshoi solicitou para fazermos uma consulta com um neuro-pediatra. Então foi descoberto que ele tinha TDH. Hoje ele é acompanhado por um neuro-pediatra, pois é dado todo cuidado e responsabilidade e ele está superando todas as dificuldades e tem participado de vários espetáculos e elencos se destacando nas apresentações do Bolshoi. No elenco do aniversário dos 25 anos do Bolshoi ele participou em dois papeis no espetáculo. Observa-se que ele se sobressai em tudo que realiza e está construindo. Chama atenção o lado humano dele que é muito aflorado. Sensibiliza-se com todos e com tudo. “Hoje, no Bolshoi, todos conhecem Kaio e gostam dele, dos funcionários aos professores. Quando as pessoas falam dele os olhos brilham e demonstram o carinho que têm por ele, pois apresenta-se muito educado e compreensivo. As pessoas que o conhecem passam a gostar e ele preocupa-se em ajudar de alguma forma. Isto é muito bonito nele e faz com que tenhamos muito carinho por ele e muito apreço. Todos nós torcemos para que realize o seu sonho de ser um grande bailarino”.
O Bolshoi, em abril deste ano, promoveu um Concurso Literário Cultural, divulgou junto a todo alunado, de classe em classe, e deixou em aberto para quem quisesse participar. Mas que de repente Kaio aderiu e assim é em tudo que a Escola promove. O seu texto foi classificado recebendo o prêmio do segundo lugar. A escola pedia aos alunos um texto que vinculasse o esporte ao balé e que usasse a criatividade.
Segue o texto de Kaio Gabriel aluno da Escola Bolshoi da 5ª série do curso.
“Entre giros e gols
Lívia vivia para o balé. Ensaios, disciplina e silêncio fazia parte da rotina dela. Enquanto isso, seus pais interiores vibravam com a Copa do Mundo, algo que ela quase ignorava.
Tudo mudou quando o Rafael, jogador de seleção, eles se encontraram em eventos que misturam arte e futebol. No começo, parecia impossível, ele, rápido e intenso, mais algo. Perceberam algo em comum, os dois viviam pelo movimento.
Rafael assistiu a um ensaio e se impressionou com a dedicação dela.
Lívia, por sua vez, assistiu a um jogo dele e sentiu o coração acelerar a cada jogada.
No final da Copa, quando Rafael fez o gol decisivo ela vibrou como nunca. Dias depois ele estava na plateia vendo Lívia dançar.
Sem dizer muito, os dois entenderam em mundos diferentes, sentiram a mesma paixão. “
Kaio, perante a assembleia de professores e alunos, recebeu a notícia que foi classificado em segundo lugar no Concurso Cultural, sendo ovacionado por todos. A Secretaria da Educação da Paraíba recebeu o comunicado da premiação do aluno e a Secretária Municipal da Educação, Profª América Castro, assim se pronunciou: “Com muita alegria e aplausos parabenizo o aluno kaio Gabriel, que vem representando com maestria a Rede Municipal de João Pessoa no Bolshoi Brasil, localizado em Santa Catarina. Além de demonstrar continuadamente o seu talento para a arte, ele também vem demonstrando o seu dom de encantar o público por meio das palavras.
Kaio, sua capacidade de transformar ideias com palavras é inspiradora e mostra quanto você tem potencial para alcançar grandes conquistas nesta linda trajetória de vida que você está trilhando com o apoio da Prefeitura de João Pessoa”.
Como se constata, Kaio é realmente uma pessoa singular e que merece todo o incentivo do poder público. Ele tem aproveitado na plenitude a oportunidade que lhe está sendo oferecida e cada vez se supera em busca da perfeição embora não o diga pela sua humildade, mas se observa em todos os passos que toma. Uma coisa nos faz refletir. Quantas crianças gostariam de estar no lugar de Kaio e as vezes apresentando as mesmas qualidades e não lhes é dado essa chance? Portanto, vejam num universo de 77 mil alunos, como diz a estatística deste ano, a se submeter a um processo seletivo rigoroso como é o da Escola Bolshoi e chegar aonde Kaio está, além de sua origem humilde onde as vicissitudes da vida o cercaram desde o seu nascimento e ele apresentar qualidades e aptidões incomuns para superar todas esses obstáculos, tem que ser uma pessoa especial mesmo. O ideal é que essa oportunidade chegasse para todos. Não acontece por existirem variáveis determinantes para isso. O fato é que o Kaio Gabriel Basílio da Luz é pessoa diferenciada, que deve continuar merecendo todo apoio que possa ser oferecido a seu crescimento. Estão de Parabéns a PMJP e Kaio, que soube aproveitar a oportunidade de realizar o seu sonho de ser um grande bailarino e isto acredito que alcança porque agora só depende dele. Vá em frente Kaio! O futuro o espera! Você é exceção à regra. Já é um vencedor!
Profª. Emérita da UFPB e membro da Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba (AFLAP
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DURANTE LICENÇA - 11/06/2026





