João Pessoa, 30 de maio de 2026 | --° / --° | USD · EUR

Kubitschek Pinheiro – MaisPB
Fotos – Eduardo Knapp
Leiam ´Ressalga´, o primeiro romance de Bethânia Pires Amaro. Ler e ouvir os personagens como se eles estivessem no palco, numa travessia de cinema, cenas instigantes, pela sensacional narrativa que parece entrar e sair das histórias, sem pedir licença.
Com selo da Record ´Ressalga´ é um título ideal que leva o leitor a lugares pouco habitados até o balacobaco das ladeiras de Salvador – o livro é repleto de linguagens diversas, gírias, apelidos e palavrões.
Uma prostituta reina em ´Ressalga´. A figura central é Garça Preta, que no livro é a mãe da protagonista, que vem de Maria da Vovó, dona de um cabaré que ganhou notoriedade, com práticas diversas, nos gozos da cidade. Ou seja, serviço completo,
No romance, Bethânia Pires Amaro se esmera – com a figura da Mulher de Roxo, que habita a memória do povo. Tudo é simples e voraz, numa trama que acompanha três gerações de baianas, a avó, Janaína, que brota das águas, a mãe, Graça, que ganha o mundo com nomes diferentes e a outra leia no livro. Do cabaré Ladeira da Montanha em Salvador se escuta os gemidos dos protagonistas. Rolam erros e violências, cada uma a seu tempo, mas com toda ressalva, a vida segue.

Livro ‘Ressalga’
A autora conversou com o MaisPB e conta mais sobre o 1º romance e que gostaria de conhecer o ‘paraíso’ João Pessoa. “Amo João Pessoa, seria uma honra levar o livro aos leitores da Paraíba e ainda tomar um banho de mar em Tambaú!”

Autora do livro
MaisPB – O primeiro romance já chega denso com a saga de três gerações de mulheres com tudo que elas carregam nas costas – a autora está entre elas, né?
Bethânia Pires Amaro – Gosto muito de escrever sobre mulheres e esta história, especificamente, buscava entender a trajetória que elas percorriam até chegar à Ladeira da Montanha, famosa zona de prostituição em Salvador que teve seu auge nos anos 60 e hoje se encontra quase abandonada. E escrever sobre mulheres significa, em especial quando cruzamos gerações, em olhar também para as heranças que carregamos, inclusive nossa ancestralidade e nossos mecanismos de sobrevivência e troca de afetos. Então nesse sentido, sinto que as minhas sensibilidades e as perguntas que me surgem enquanto mulher contemporânea, sem dúvida, aparecem na atmosfera do livro e na espinha dorsal dessas protagonistas.
MaisPB – O cenário é uma fonte de desejos do Reconcânvo a Salvador – e lá estão todas as Janainas de seu livro, estou certo?
Bethânia Pires Amaro – Com certeza, e também era importante para mim, enquanto autora também baiana, que o Recôncavo e Salvador não fossem meros panos de fundo, que esses cenários funcionassem de forma muito sensorial, traduzissem o mundo interno das personagens e operassem como forças motrizes da narrativa. As águas, ou até mesmo a ausência delas, ditam o ritmo da vida e dos desejos ali, mesmo porque não é possível falar de Salvador e de Cachoeira sem evocar a presença quase mítica dos rios e do mar, ambos com muita força cultural e histórica nas narrativas que eu quis trazer para o livro. Então estes cenários estão ligados de modo muito natural à identidade das personagens e às formas pelas quais elas se colocam no mundo.
MaisPB – Conta pra gente como é que se constrói um romance, principalmente nos tempos de hoje, conta uma história que se repete há tantos anos?
Bethânia Pires Amaro – Acho que os ditos grandes temas da literatura, a perda, a violência, os laços familiares, o amor, sempre podem vir apresentados de novas formas, o que muda no romance contemporâneo é justamente o recorte e as contradições do nosso tempo, que inevitavelmente atravessam a narrativa. Cada romance busca oferecer uma experiência ao leitor, inclusive estética, com uma cadência própria, que revela o olhar autoral de quem escreve. Para isso, ao meu ver, é preciso fazer um trabalho de linguagem, além do trabalho de pesquisa histórica, de modo a tornar a leitura interessante e relevante mesmo nos dias atuais.
MaisPB – Só no final do livro que você presenta a palavra ressalga – quando o personagem Afonso sente o cheiro de Atlântida?
Bethânia Pires Amaro – Sim, a ideia era que o leitor intuísse o significado da palavra ao longo da leitura, que ele experimentasse essa atmosfera da ressalga, esse acúmulo de sal, e também a ressaca que deixa marcas na memória e cria padrões que se repetem ao longo das gerações familiares.
MaisPB – Eu achei hilariante aparecer em Ressalga a referência ao túmulo de Antonio Carlos Magalhães? Bora falar?
Bethânia Pires Amaro – Gosto muito de dialogar, nos meus livros, com camadas de realidade e da história política e social de um lugar. Mesmo numa narrativa com elementos de realismo mágico, com alguns componentes líricos, penso que esses contrapontos são valiosos, por fazerem parte do imaginário urbano e também por serem por si sós uma espécie de monumento do passado recente, já presentes no conhecimento de mundo do leitor. E o humor é uma ferramenta poderosa para acessar esses mundos sem precisar quebrar a experiência de leitura e recorrer a explicações didáticas.
MaisPB – Uma coisa rica nesse romance é a linguagem popularesca dos personagens sem precisar mostrar como repetição?
Bethânia Pires Amaro – Fico muito feliz com essa pergunta porque realmente o trabalho de linguagem desse livro foi um dos maiores desafios no processo de escrita. Era importante para mim fazer um tratamento literário, por assim dizer, dessa oralidade maravilhosa na qual cresci e não reproduzi-la literalmente, mas em vez disso capturar a cadência, o léxico e o ritmo do que eu escutava pelas ruas da Bahia para apresentar algo diferente ao leitor, que criasse vozes próprias para esses personagens, ao mesmo tempo familiares e novas.
MaisPB – Eu estava aqui pensando que tal Ressalga vira uma minissérie….
Bethânia Pires Amaro – Ah, seria maravilhoso, acho que os próprios cenários e também o arco das personagens traduziriam muito bem para o audiovisual. Quem sabe o futuro não nos reserva um roteiro por aí?
MaisPB – Adorei saber que você nasceu aqui perto de nós, no Recife. Venha lançar o livro em João Pessoa, venha?
Bethânia Pires Amaro – Amo João Pessoa, seria uma honra levar o livro aos leitores da Paraíba e ainda tomar um banho de mar em Tambaú!
OPINIÃO - 02/06/2026