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Jornalista desde 1995 pela UFPB, com pós-graduação em Jornalismo Cultural. Radialista, marido de Gi, pai de Theo e editor setorial no jornal Correio da Paraíba. Torcedor do Flamengo e ex-professor do curso de Jornalismo na FFM. Já trabalhou, também, nos jornais A União e O Norte, no portal Tambaú 247, além das rádios Cabo Branco FM, Jovem Pan AM e CBN, sendo freelancer dos jornais O Globo e Estado de S.Paulo. Contato com a Coluna: jamarrinogueira@gmail.com

Surdez, cinema e identidade social

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publicado em 02/03/2015 às 09h40

Adolescente que é única ouvinte em uma família de surdos (não mudos nem surdos-mudos!!!) descobre ter dons canoros e vivencia o conflito de disputar concurso musical em Paris ou permanecer em uma cidade do interior (onde vende queijos e ‘trabalha’ como intérprete da família).

O roteiro simples de ‘A família Bélier’ (produção francesa de 2014, com direção de Eric Lartigau, o mesmo de ‘Os infiéis’) resultou em um filme excelente, por ter uma bela história sobre amor, valores morais e inclusão.

Se você é surdo ou tem em seu círculo de relacionamento afetivo algum surdo, saberá que o núcleo não-ouvinte do filme tem um nível altíssimo de perfeição interpretativa.

Karin Viard e François Damiens, que  interpretam os pais da jovem Paula (Louane Emera) convencem como surdos ao utilizarem a língua de sinais e todo o arsenal de gestos, caretas e representações semióticas.

A adolescente Paula detesta o ‘infortúnio’ de ter uma família de surdos (embora seja evidente o amor que nutre por todos). Ela não personifica o papel de mocinha, evidenciando insatisfações…

O diretor Lartigau estrutura – com muito bom humor – debates a respeito da exclusão social dos surdos, do preconceito e dos ruídos comunicacionais.

O filme francês faz graça ao tratar de pelo menos meia dúzia de temas muito sérios e de discussão permanentemente necessária.

O corte do cordão umbilical entre pais e filhos é um dos temas. Mais uma vez, espectadores com filhos adolescentes terão forte identificação.

Um debate mais técnico e mais profundo leva à reflexão a respeito dos códigos comunicacionais que envolvem a surdez e a língua de sinais (língua, não linguagem!!!). O roteiro deixa claro: surdez não é uma deficiência e sim uma identidade social.

Um ponto negativo no filme é a ‘necessidade’ que a Paula tem de usar ao mesmo tempo a língua de sinais e a língua francesa em cenas autoexplicativas (devido à ausência massiva de conhecimento da plateia com relação às  sinalizações). Isso não tira, porém, os méritos da obra.

Outro ponto discutível é o uso de atores ouvintes para os papéis de surdos (há uma reserva de mercado na França e isso foi motivo de polêmica).

No final das contas, ‘A família Bélier’ é um filme divertido (muito divertido!) e que faz lacrimejar os olhos até mesmo de espectadores durões como eu. Sem medo do chavão, ‘A família Belier’ é imperdível!!!

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