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Jornalista desde 2007 pela UFPB. Filho de Marizópolis, Sertão da Paraíba. Colunista, apresentador de rádio e TV. Contato com a Coluna: heroncid@gmail.com

Ryan

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publicado em 25/12/2012 às 11h10
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Passava da primeira hora da tarde. Antes de cruzar o sinal, um pequeno caminhante rouba-me a visão. Automaticamente viro os olhos na sua direção levado, talvez, pelas características físicas e figurino pouco habitual para aquela pouca idade. Cabelos longos ao vento sob um chapéu de couro, daqueles de cangaceiro.

De súbito, o cérebro me oferece duas opções: contemplar de longe e carregar apenas aquela imagem inusitada no meio do frisson da vida corrida ou ousar, tanto quanto o personagem às minhas vistas, e saber mais sobre aqueles passinhos curtos no acostamento.

Manobro na pista contrária e me aposso da entrada da garagem de uma das casas da proximidade na sombra de um pé de castanhola. Deixo o carro no meio da calçada e espero a sua passagem. Minhas companhias dentro do veículo não entendem bem a repentina parada e me olham um tanto quanto contrariadas e curiosas.

Baixo os vidros. De longe, lá vem ele. Uma passada de menino. Um jeito de homem. Uma fisionomia infantil. Um olhar de maturidade. Fito-o como um velho conhecido, mas guardando certo temor da imediata rejeição ou receio da abordagem. Afinal, era um desconhecido parado no meio do nada encarando uma criança.

Mantenho o alvo dos olhos na sua direção. Ele devolve e faz um pequeno gesto de reciprocidade. Pronto, era abertura que eu precisava. Retribuo o aceno e o chamo. Meio sem jeito, meio firme, meio tenso, eis que em segundos surge bem perto da minha janela um tanto quanto atarantado e curioso.

Diálogo de desconhecidos – Tudo bem com você, pergunto-lhe para início de conversa e ouço uma resposta afirmativa tímida. Insisto na improvisada entrevista inquirindo seu nome. “Ryan”, responde o garoto de dez anos. Nas mãos percebo uma lata de leite, sem a embalagem publicitária. Uma espécie de depósito.

Mesmo suspeitando da serventia, questiono. “É para guardar as moedas que eu estou pedindo ali no sinal com meus irmãos. Vou juntar e dar para minha mãe comprar minha roupa de Natal”, explica o menino, sem pedir mais uma contribuição para inteirar sua empreitada debaixo do escaldante sol do Bessa a queimar sua pele branca.

Pra quebrar o gelo, digo que gostei do seu chapéu diferente e indago sobre sua origem. Ele me diz que achou no lixo. Ryan, aos dez anos, trabalha com reciclagem, onde junta mais outras moedas para ajudar em casa. Apesar de ter achado em condições miseráveis, o adereço de vaqueiro estava em ótimo estado de conservação.

Na cabeça de Ryan, o chapéu encaixou direitinho. Não só no tamanho. Combinou com a expressão forte de suas faces tão juvenis, porém já tão precocemente marcadas pela vida dura, pelo dias desertos na solidão dos cruzamentos. Ele gosta do elogio e ajeita o chapéu.

Não precisou de uma palavra – Com um sorriso no cantinho da boca, reage com um pouco de alegria nas curvas do rosto, mas não o suficiente para esconder nos lábios e retinas o que meu coração captara naquele encontro do acaso. A sua infância foi roubada sem permitir-lhe o que aquelas outras crianças, meus filhos, que o olhavam, estavam a desfrutar.

A companhia fraterna dos pais. O conforto do passeio de carro. A roupa nova, limpa e passada, o aconchego do carinho, o direito de ter sem pedir, sem humilhação, sem pé no chão, sem sol na cara, sem piada, sem censura, sem xingamento, sem desprezo, sem desdém…

Contenho minha repentina reflexão e inquiro-lhe sobre a escola. Sim, ele estuda bem perto da casa de seus pais, nas imediações da Beira da Linha em Mandacaru. Sem calcular direito a pergunta, quero saber um ponto de referência de sua residência, do lugar onde vive…

Inocentemente, Ryan tenta me ajudar com uma frase que pouco ou nada acrescentaria: “Moro ali bem perto daquele sítio onde ‘João’ morreu. Ele teve um infarto”, contextualiza o pequeno com voz já prematuramente grave e amadurecida.

Não ignorei. Certamente, aquela conversa desconcertante e inusitada levou-o por alguns instantes a pensar que eu poderia saber mais sobre ou até compor o pequeno “mundo” em sua volta. Fingi que aquela informação não era desimportante e fiz um ar de quem estava mais ou menos entendendo seu esforço.

Olhei bem no fundo dos seus olhos e disse-lhe ter gostado muito de nossa conversa. Arrisquei e pedi para tirar uma fotografia sua. Acanhado, ele não resistiu. Postei o celular na sua direção e pedi uma pose. Ele permaneceu firme. Na postura e no olhar. Era uma expressão dura demais para uma criancinha de dez anos.

Baixei a câmera e solicitei um sorriso para enfeitar seu lindo e expressivo rosto. Ele voltou a soltar os lábios timidamente. Disparei o botão e elogiei o resultado da imagem. Entreguei-lhe um modesto ‘presente’. Seus olhos reagiram com surpresa seguida de um “muito obrigado”.

Depois de nova pergunta sobre seu iminente paradeiro, Ryan informa que vai pegar o ônibus pra casa bem ali na esquina. Aperto sua mãozinha suja e frágil na aparência e sinto de volta um firme cumprimento. Antes de seguir seu caminho de pés descalços, o meu novo amigo não esquece de dizer um angelical: “Feliz Natal pro senhor”.

Seguindo comigo –
Dou ré, passo bem ao lado de sua parada de ônibus e o sigo pelo retrovisor até onde a vista pôde alcançar. Ele também me acompanha até o momento do próximo veículo atravessar seu raio de visão. Pego meu itinerário. Um silêncio invade o carro e o frenético Retão de Manaíra.

Além das lentes dos meus óculos, olho embaçado no horizonte da avenida decorada de carros, outdoors e vitrines… A cena não me sai do juízo. Num esforço inócuo, tento imaginar o passado, o presente e principalmente o futuro daquela criaturinha de Deus.

Antes de vencer o próximo sinal, lembro-me dos cabelos longos, da pobreza do pequeno Ryan e como num flash recordo-me do filho do carpinteiro de Nazaré. Tão singelo de nascimento, tão humilde de vestes e tão poderoso nas palavras e exemplos.

Um soluço ultrapassa minha faixa de advertência. Ao seu modo, de maneira inesperada e particular, o próprio Jesus acabara estar comigo e se revelar com sua mansidão e amor para dizer-me que o seu Natal é de sentimento e não das coisas.
 

*Coluna publicada no Jornal Correio da Paraíba, excpecionalmente reproduzida no MaisPB.

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