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Jornalista desde 2007 pela UFPB. Filho de Marizópolis, Sertão da Paraíba. Colunista, apresentador de rádio e TV. Contato com a Coluna: heroncid@gmail.com

Natalícios

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publicado em 25/12/2013 às 12h18
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O tanque estava na reserva. Já adiara demais a reposição do abastecimento. Paro no posto adiante. O frentista atende o pedido. Na volta, comunica-me um tanto sem jeito e nervoso o equívoco. Havia despejado meio tanque de diesel, não de gasolina. O flex do meu modesto veículo só comporta gasolina e álcool. Diesel só serviria pra bater o motor.

Além do pleito de desculpas, o funcionário avisa que será preciso retirar todo o óleo, sem ligar o carro pra evitar maiores danos. Mesmo com fome e ainda sem ter tido tempo para o desjejum, o jeito era mesmo começar a manhã de véspera de Natal esperando. De nada adiantaria se estressar.

Poucos minutos debaixo da sombra do estabelecimento, alguns pensamentos vagos rodando no juízo e de repente uma abordagem: “Senhor, desculpe o incômodo, uma moedinha pra eu inteirar a minha quentinha de hoje”, rogou aquela figura que acabara de entrar de surpresa no cenário de uma manhã conturbada.

Olhos meio inchados davam aparência de ressaca, mas as palavras eram sóbrias, discurso reto. Não fosse os pés descalços, a roupa maltrapilha, a ausência de quase todos os dentes, a barba malfeita e os cabelos assanhados, dava até pra imaginar estar diante de alguém com vida normal.

Edmilson da Silva. Nascido na Maternidade Cândida Vargas. A mãe veio de Solânea. Conheceu o pai por aqui mesmo numa festa qualquer da vida. O velho, que já era pai de prole de outra família, se engraçou da jovem interiorana. Em pouco tempo, estavam morando juntos e constituindo novo clã.

O casal escolheu Cabedelo pra viver e de lá tirar o sustento dos filhos. Assim como o genitor, Edmilson virou trabalhador do Porto e seguiu o ofício de estivador. Como qualquer outro trabalhador, viveu do suor da profissão, até que um dia…

Orfandade – …Perdeu mãe e pai. “De lá pra cá, minha vida virou, doutor”, contou-me. Virou mesmo. De dono da própria sorte e da carteira de trabalho, virou morador de rua. Um transeunte nas avenidas de João Pessoa.

Solidão – Entregou-se a desesperança e contentou-se com o pouco ou quase nada que amealha aqui e acolá quando pede e alguma alma boa pára para doar um trocado solto na carteira ou no porta-trecos do carro.

No luxo do Cabo Branco – Embora suspeitando, pergunto: “Onde você, mora”? Ele responde: “Moro no Cabo Branco”. Peço mais detalhes do endereço. Ele pronuncia algumas informações desconexas até chegar à “fachada” de um prédio. “É um lugar bem legal lá”, enfeita Edmilson, suavizando o enunciado de sua residência no nobre bairro da cidade.

Divagação – Deve ser por influência dos “vizinhos” e das imagens do poder ao seu redor o sonho acalentado por Edmilson. Indagado, ele abre o sorriso e revela sua utopia: “Meu sonho, doutor, é ficar rico, ter dinheiro…”.

Consumo – “E o que você faria”, questiono. “Eu compraria uma casa bem bonita. Casaria com uma garota bem bonita, abriria uma conta pra ela. Mulher gosta de amor e de dinheiro né, doutor”, retruca gargalhando.

Partilha – A ‘riqueza’ de Edmilson também seria compartilhada com seus amigos de ‘teto’. “Eu chegaria assim e diria pega aí R$ 50 pra tu”, diz rindo e todo orgulhoso, sonhando sendo o “cara” de toda sua turma.

Opção – Voltemos à realidade. Edmilson é dono de uma casinha em Cabedelo. Não mora nela. Prefere os R$ 150 do aluguel. “É a minha garantia, doutor, aí eu posso comprar uma roupinha”, explica sua tese confusa.

Trabalho – Quero saber em quê Edmilson gostaria de trabalhar se a ele fosse dada uma nova oportunidade de vida. “Podia ser de caseiro ou cuidando de um jardim assim bem bonito”, diz, revelando seu gosto.

Presente – “O que você gostaria de ganhar no Natal”, persisto na entrevista. Meio encabulado, Edmilson mostra a sacola que carrega. “Uma bolsa daquelas de botar nas costas pra carregar minha roupa”, descreve.

Natal  – No meio da conversa, descubro uma particularidade que nos une… Edmilson nascera em 26 de dezembro de 1969. Amanhã, um dia depois do Natal, completará 44 anos. No mesmo dia que chego aos meus 30.

Diferenças – Ao contá-lo sobre a coincidência de nascimento, o Edmilson ‘desenrolado’ se acanha e meio sem jeito faz o primeiro comentário que lhe vem à cabeça: “Infelizmente, eu nasci pobre e o senhor nasceu rico”.

Reconhecimento – Explico-lhe que nem sou e nem nasci rico. Contei rapidamente um pouco da minha história de vida. De Marizópolis até o jornalismo. “É eu já vi mesmo o senhor na televisão”, registrou Edmilson.

Poder – Mais uma vez, Jesus, o aniversariante de hoje, me ensinou na manhã de ontem que quando quer falar com a gente o improvável acontece para revelar que no seu dicionário não há coincidência e nem destino…

PINGO QUENTE “Mas eu sou feliz, doutor”! Edmilson da Silva, que sumiu no meio do asfalto sem perceber que acabara de me dar um rico presente antecipado nesse nosso aniversário.
 

*Artigo publicado na coluna do jornalista no Correio da Paraíba, edição do dia 25/12/2013 (quarta-feira).

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