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Rômulo Halysson Santos de Oliveira é advogado e analista político, graduando em economia pela UFPB, empreendedor cultural e escreve semanalmente coluna de análise política com o título “Olhares Líquidos”.

Os manuais de Bolsonaro (Parte 1) – Von Clausewitz

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publicado em 11/03/2019 às 09h32
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“A guerra é a continuação da política por outros meios” Clausewitz

Se quisermos entender um pouco do que acontece na atual conjuntura política nacional, sobretudo após a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência da República, é fundamental que passemos a ler os manuais que orientam o atual presidente. Um deles tem como autor Carl Phillip Gottlieb Von Clausewitz.

General e estrategista prussiano, Clausewitz é um dos maiores pensadores de guerra da História. Nascido em 1780 em Burg, atual Alemanha, entrou para o exército aos 12 anos, serviu na campanha de Reno entre 1793 e 1794. Entrou para a Academia de Berlim em 1801, onde foi influenciado pelo idealismo germânico, tendo aprofundado seus estudos em Filosofia, estudando dialética e assistindo aulas de lógica e ética do professor Johann G. Kiesewetter, um difusor das concepções de Immanuel Kant. A compreensão da sua obra “Von Krieger” (Da Guerra),
nos ajuda a começar a entender, do ponto de vista mais amplo, as “conturbadas” ações do presidente e do seu governo.

Durante a violenta campanha eleitoral de 2018, se tornou comum ouvir do então candidato Bolsonaro expressões polêmicas, do tipo: “as minorias devem se curvar diante da maioria”. Expressão que no ambiente democrático é tratada como absurda, na literatura de Clausewtiz, trata-se de um conceito claro da guerra: “A guerra é, pois, um ato de violência destinado a forçar o adversário a submeter-se à nossa vontade”.

A dimensão estratégica de Clausewitz pode ser percebida num dos mais impressionantes acontecimentos da história das guerras modernas, a Batalha de Valmy, ocorrida a 1792, onde, pela primeira vez, o exército revolucionário francês conseguiu vencer de forma extraordinária.

A ideia de um exército revolucionário constituído exclusivamente por cidadãos, e não por mercenários e aristocratas guerreiros, era impressionante. Esse modelo de exército seria a máquina de guerra do império de Napoleão Bonaparte nas duas décadas seguintes. Foi nesse contexto em que se situou Clausewitz, que passou a integrar o exército prussiano no momento em que este lutava contra a expansão de Napoleão.

Para ele, as guerras napoleônicas exigiam uma violência generalizada e a integração entre política e guerra, como expressou em sua famosa definição, cuja única diferença estava nos meios utilizados, veio daí a compreensão de transformar o conceito de guerra a partir do modelo de formação do exército nacional francês.

Sua compreensão da essência violenta da guerra abandonava a falácia da honra aristocrática que permeava o conceito até então, é fundamental para entender a sua definição sobre a guerra:

“A guerra, então, é apenas um verdadeiro camaleão, que modifica um pouco a sua natureza em cada caso concreto, mas é também, como fenômeno de conjunto e relativamente às tendências que nela predominam, uma surpreendente trindade em que se encontra, antes de mais nada, a violência original de seu elemento, o ódio e a
animosidade, que é preciso considerar como um cego impulso natural, depois, o jogo das probabilidades e do acaso, que fazem dela uma livre atividade da alma, e, finalmente, a sua natureza subordinada de instrumento da política por via da qual ela pertence à razão pura.” (CLAUSEWITZ, Carl Von. Da Guerra. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010, p.30).

A famosa “Trindade de Guerra” de Clausewitz, pela ordem, (1) violência primordial, ódio e inimizade; (2) jogo do acaso e da probabilidade; e (3) guerra subordinada à política racional, a partir dela a guerra se estende para outros meios, como a política e a comunicação, e vice-versa, o que é deveras complexo. Cada uma das três categorias
afeta, o conjunto de atores sociais, a citar: (1) povo; (2) exército; (3) governo.

O povo é estimulado a enxergar na violência com um fim em si e passa a brigar por isso, o exército é orientado a repercutir as ações coordenadas pelo comando sem questionar o conteúdo e o governo a produzir o que achar necessário, se valendo da distração provocada pelos conflitos.

Senão vejamos…

Uma campanha forjada na arregimentação de pessoas dispostas a lutar através de grupos de whatsapp (povo) e a posterior divulgação de conteúdo falso (exército), demonstram que a estratégia bolsonarista obedeceu ipsis literis a estes fundamentos.

O governo segue a mesma toada. De tal forma, que quem estiver buscando soluções típicas de ciência política clássica para contra-atacar as ofensivas de Bolsonaro, esqueça!

A escola Clausewtiana de guerra baseia suas teorias dando importância a aspectos psicológicos, morais e políticos DA GUERRA, fatores que impedem a previsibilidade e padronização dos conflitos. De modo que, aquilo que para a grande maioria são meras bobagens (e são) faladas por algum ministro – ou pelo o próprio presidente – para chocar os adversários e parte da opinião pública, na verdade tem função duplamente estratégica: apontar contradições dos críticos oposicionistas e desviar a atenção enquanto o governo atua em outros flancos, como esconder as barrigadas na política econômica e/ou se esquivar de responder acerca dos pontos mais polêmicos da reforma da previdência, evitando desgastes perante o eleitorado mais conservador.

Assim, toda contradição política, estética ou moral praticada pelos governos anteriores ou mesmo pela atuação política dos adversários, se tornará uma arma de grande potencial ofensivo a ser utilizada pelo atual governo. Numa espécie de “dialética de guerra”. O campo de batalha, claro, as redes sociais.

Reconhecidamente indisciplinado enquanto esteve na ativa do Exército, Bolsonaro está longe de ser considerado um mestre em estratégia política ou de guerra, mas o tempo – ao que parece – lhe fez um soldado dedicado ao cumprimento das ordens do comando. Pelo menos quando lhe é conveniente. É o que sugere a saudação que fez ao General Eduardo Villas Bôas, durante cerimônia de posse do Ministro da Defesa Fernando Azevedo e Silva, em janeiro deste ano. Na ocasião, disse o presidente: General Villas Bôas, o que já conversamos ficará entre nós. O senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui”.

Mas, o que conversaram?

Registre-se, que o mencionado General exerceu protagonismo em diversos episódios no tempo que antecedeu as eleições de 2018, inclusive mandando recados diretos para a Presidência da República e para o Supremo Tribunal Federal. Agindo como uma espécie de porta-voz de um “poder moderador em formação”, desrespeitando instituições a quais, por força constitucional, se comprometeu submeter. Coincidência?

Nos bastidores, Villas Bôas é tido, ao lado do ministro da CSI, General Augusto Heleno e do próprio Ministro da Defesa, Azevedo e Silva, como um dos principais mentores do atual presidente, além de estrategista reconhecido. Assim, quando destacamos sua influência perante o presidente e o fato de que Clausewitz é matéria obrigatória
nas disciplinas de estratégia e tática das academias militares das Forças Armadas do Brasil, ligamos os pontos.

Não acredito que Bolsonaro tenha lido as quase mil páginas de “DA GUERRA”, uma leitura tão densa não parece ser muito do seu feitio. Mas, como a obra fora dissecada por seus mentores, não é difícil perceber que este é um dos manuais que o atual presidente tem seguido a risca. A prática política (de guerra) adotada desde a campanha e
agora no governo evidencia isto.

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