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Cidade incentiva moradores abrigarem sem-teto

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publicado em 09/11/2018 às 09h54
atualizado em 09/11/2018 às 09h56
Foto: DIVULGAÇÃO/MULTNOMAH COUNTY/MOTOYA NAKAMURA

Diante de uma crise de moradia que já levou milhares de pessoas a viverem em carros, abrigos ou nas ruas e vários governos locais e estaduais a declararem estado de emergência, algumas cidades americanas estão testando uma abordagem inusitada para enfrentar o problema: oferecer incentivos para que proprietários abriguem sem-teto no quintal de casa.

Pelo menos quatro projetos pilotos, em Portland (no Estado de Oregon), Seattle (no Estado de Washington), no condado e na cidade de Los Angeles, estão recrutando pessoas interessadas em instalar uma “microcasa” nos fundos de sua propriedade, onde indivíduos ou famílias sem-teto possam morar.

As regras variam. Em Seattle, a iniciativa pioneira, as casas são construídas pelo Block Project (Projeto do Quarteirão, em tradução livre), administrado pela organização sem fins lucrativos Facing Homelessness (Encarando a Falta de Moradia), com doações da comunidade e ajuda de voluntários.

Os proprietários não recebem nada em troca, e os residentes não pagam aluguel nem têm prazo para deixar o local. Caso um participante desista do projeto, a casa é retirada de seu quintal e instalada em outra propriedade.

Em Portland, todo o custo e trabalho de construção ficam a cargo do governo do condado de Multnomah, que entrega as casas prontas aos participantes, com a condição de que, por um mínimo de cinco anos, abriguem famílias selecionadas pelo programa, chamado A Place for You (Um Lugar para Você, em tradução livre).

O aluguel pago pelas famílias durante esse período, com ajuda de vouchers do governo, não vai para o proprietário, e sim para cobrir serviços como luz, água e manutenção. Depois de cinco anos, o proprietário assume o controle da microcasa e pode alugar para quem quiser e receber renda da locação. Se quebrar o contrato antes desse prazo, tem de pagar pelo custo de construção.

Em Los Angeles, há dois projetos separados, ambos em fase inicial. Na semana passada, a cidade anunciou que recebeu US$ 1 milhão (cerca de R$ 3,7 milhões) da Bloomberg Philanthropies, organização filantrópica de Michael Bloomberg, para financiar um programa, cujos detalhes ainda estão em discussão.

No condado (que engloba também municípios nos arredores de Los Angeles), a ideia é oferecer financiamento para ajudar proprietários a construir ou renovar casas no quintal. O governo paga por parte dos custos, mas o participante fica responsável pela obra, com a assistência de consultores.

Quando prontas, as unidades devem ser alugadas para sem-teto selecionados por meio de programas de assistência, mas ainda não há definição sobre prazos ou outros detalhes.

Interesse

Todos esses programas ainda estão em estágios iniciais, e os idealizadores reconhecem que, sozinhos, não vão solucionar a crise de moradia, relacionada também à pobreza, e não apenas à falta de casas. Mas o objetivo é descobrir se iniciativas do tipo poderiam complementar as medidas já adotadas no combate ao problema.

“Dez anos atrás, eu jamais imaginaria que estaríamos falando de unidades no quintal no contexto de soluções para a crise de moradia. Isso mostra como as cidades chegaram a um ponto em que estão tentando de tudo para enfrentar esse problema”, disse à BBC News Brasil Connie Chung, uma das responsáveis pelo projeto no Departamento de Planejamento Regional do Condado de Los Angeles.

Apesar de incomum, a ideia foi bem recebida até agora. Quando o projeto piloto de Portland foi anunciado, em 2016, mais de mil proprietários manifestaram interesse. A cidade é uma das que declararam estado de emergência por conta da crise de moradia. No condado inteiro, calcula-se que sejam necessárias pelo menos 25 mil unidades adicionais.

“O interesse realmente nos surpreendeu. Achávamos que teríamos sorte se 20 proprietários considerassem participar”, disse à BBC News Brasil Mary Li, diretora do Multnomah County Idea Lab, o laboratório de inovação do condado, responsável pelo projeto.

“Quando você tem mil pessoas dispostas a potencialmente arriscar seu maior bem material, a sua casa, para ajudar alguém que não tem uma, é algo muito especial. Mostra que, quando as pessoas têm a oportunidade, elas ajudam”, salienta Li.

Ao final, quatro foram selecionados, e as microcasas, com cerca de 18 m², ficaram prontas para receber os primeiros moradores na metade deste ano. Agências do governo selecionaram as famílias, que também recebem serviços já existentes do governo local, como ajuda para conseguir emprego e resolução de eventuais disputas com os proprietários.

Uma das primeiras contempladas foi Sherry Mesa, que desde julho vive com a sobrinha, Sobeyda, em uma microcasa no quintal de Martha Chambers. “Eu não posso contribuir com altas quantias em dinheiro, mas esta é a oportunidade perfeita para ajudar uma família, em meu quintal. Todo mundo sai ganhando, o proprietário e a família que antes era sem-teto”, disse Martha em depoimento logo após receber Sherry e Sobeyda.

Envolvimento da comunidade

Em Seattle, que também está em estado de emergência devido à crise de moradia, com mais de 12 mil sem-teto, o Block Project tem mais de cem proprietários interessados em lista de espera.

Como o próprio nome sugere, a ideia do projeto é envolver a comunidade inteira e, no futuro, instalar em cada quarteirão da cidade uma microcasa para abrigar alguém que vivia como sem-teto.

“Se alguém na vizinhança tiver alguma objeção, por qualquer motivo, não vamos instalar a casa naquele quarteirão”, disse à BBC News Brasil o arquiteto Rex Hohlbein, que fundou a organização Facing Homelessness e criou o Block Project ao lado da filha, a também arquiteta Jenn LaFreniere.

G1

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