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Odilon Fernandes – advogado, escritor, professor e procurador federal aposentado.

Viajando ao Canadá (primeira classe)

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publicado em 29/06/2018 às 16h57

Fomos conhecer o Canadá e, conosco, levamos a minha mãe. Decidimos viajar repentinamente, motivo pelo qual reservamos nossa passagem de última hora, já bem perto da data do vôo. Embarcamos em João Pessoa para pegarmos um voo para São Paulo e, de lá, outro sairia para o Canadá.

Fazendo o check-in no aeroporto de São Paulo, a moça que nos atendeu informou-nos acerca de uma lotação na aeronave que viajaríamos e, pelo fato de havermos feito as ultimas reservas, teríamos que viajar em assentos separados, embora fossemos uma família. Imediatamente contraí os músculos da face, de forma teatral e demonstrando grande preocupação com aquela informação recebida. Percebendo a reação, a moça questionou-me: “há algum problema, senhor?” ao que respondi: “sim, tem um grande problema!”. A funcionária puxou o rádio da cintura e prontamente contatou outra pessoa, passou algumas informações, recebeu outras e, então, virou para nós e solicitou que prosseguíssemos até o portão de embarque e, lá, conversássemos com o responsável por decidir aquela situação.

Chegando lá, outra senhorita já nos esperava. Interceptou-nos e questionou: “é o senhor que está com problemas?” e respondi que sim, “tenho um grande problema!”. Prontamente retrucou: “qual o problema? Em que posso ajudar, senhor?”. Aí, novamente, retomei à minha posição teatral: “Moça, é o seguinte: minha mulher, aquela senhora ali no canto – apontei para Miriam – é esquizofrênica”. Neste momento, coincidentemente, Miriam, com os dedos, fazia cachos no cabelo, mordendo os lábios e olhando para o horizonte. A moça assistiu àquela cena, analisando Miriam, até que soltou um: “O senhor jura?”. Continuei: “Sim! Olhe!” – apontei novamente. “E o pior é que hoje ela está tendo crises, como de costume… Ela tem fortes acessos de violência” – sussurrei ao seu ouvido, como quem contava um segredo. “Estamos viajando para levá-la a um médico especialista no Canadá. Inclusive, minha mãe está indo conosco para ajudar-nos! Moça, nós precisamos viajar em assentos juntos! Tente resolver isso! Caso contrário, estejam avisados, desde já, que não me responsabilizo pelo que possa vir a acontecer, caso minha esposa não esteja ao meu lado!”.

Assustada, com os olhos arregalados e fitos em Miriam, a moça, gentilmente, pegou meu cartão e disse-me que resolveria aquela situação sim, “com certeza!”. Contamos alguns minutos até que a funcionária voltasse, nos informando havia conseguido um “up-grade” e, por este motivo, viajaríamos na primeira classe daquele voo! A viagem foi tranquila. Miriam, contudo, expressava seu incômodo com os olhares apreensivos que nos cercavam.

Até a chegada ao Canadá, Miriam me enchia de beijos. Agradecia-me pela regalia de fazermos uma viagem tão cansativa e de última hora na primeira classe. Como eu havia conseguido aquela proeza num voo tão cheio?

Somente após dois dias sendo agraciado com elogios de minha amada esposa, confessei-lhe a verdadeira história. Ah, esta me valeu duas semanas de xingamentos e beliscões, a cada comentário que fazíamos a respeito da “viagem luxuosa”.

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