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Programa da UEPB estimula coleta seletiva e gera inclusão social

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publicado em 19/05/2017 às 11h49

Política de gestão ambiental, consciência ecológica e manuseio correto dos resíduos sólidos. Esses são alguns dos objetivos alcançados pelo programa “Melhor Coletar é a Vida Melhorar”, desenvolvido em Campina Grande pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) junto aos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis da Cooperativa Catamais. A iniciativa, implantada em 2010, mudou a vida dos catadores que, todos os dias se reúnem cedo na sede da cooperativa e saem para a coleta seletiva. A rota, devidamente traçada, torna o meio ambiente mais saudável, além de garantir a renda dos catadores.

O trabalho realizado debaixo do sol e sob forte calor é cansativo, mas menos degradante do que o tempo em que viviam no lixão. Por volta das 11h, os catadores retornam para o ponto de partida no galpão onde fazem a distribuição e seleção dos resíduos. Os materiais são prensados e encaminhados para os pontos de revenda, que repassam para as indústrias que fazem a manufatura. Desde o seu nascedouro, o trabalho coordenado pela professora Idalina Maria Freitas Lima Santiago, do Departamento de Serviço Social, tem promovido a melhoria na qualidade de vida dos cooperados, aperfeiçoado as condições de trabalho dos catadores e catadoras de materiais recicláveis, além de sensibilizar a sociedade campinense para a importância da coleta seletiva.

A experiência da coleta seletiva na cidade melhorou as condições de trabalho de catadores e catadoras da Catamais. Os tempos de lixão ficaram para trás. Aos 33 anos, Valdete Aires da Silva, moradora da Ramadinha, revela que o programa da UEPB ajudou a melhorar a vida dos catadores e catadoras. Mãe de um casal, ela lembra dos tempos em que trabalhou lixão do Serrotão e confessa que não tem saudades do ambiente insalubre e desumano. Na cooperativa ela ganhou dignidade. Toda a renda conquistada pelos catadores é dividida de forma igual entre todos. “A UEPB ajudou muito a melhorar a vida dos catadores e nós somos muito agradecidos por isso”, disse com sorriso indisfarçável no rosto.

O encontro com a professora Idalina no coração do projeto, o aperto de mão e o abraço caloroso traduzem a eficácia da parceria, selada com trabalho, conhecimento científico e compromisso da Instituição. Financiado atualmente pelo Programa de Apoio a Projetos de Extensão (PROAPEX) e pelo Programa de Bolsas de Extensão (PROBEX), ambos da UEPB, o “Melhor Coletar é a Vida Melhorar” propicia condições favoráveis para os catadores realizarem o trabalho com dignidade.

Atualmente, nove pessoas fazem parte da Catamais, realizando a coleta. Esse número já chegou a ser de 23 catadores que, depois, migraram para outras atividades. A cooperativa tem sede instalada Rua Capitão José Amâncio Barbosa, 134 A, São José, que funciona como espécie de núcleo de um empreendimento que garante o sustento dos catadores. Contando com a colaboração dos docentes e estudantes bolsistas da UEPB, os catadores criaram a própria rota na cidade, onde todos os dias recolhem de porta em porta o material reciclável, além de captar doações de empresas privadas e públicas.

Presidente atual da entidade, Maria de Lourdes, moradora do Mutirão, destaca o papel da UEPB em incentivar a saída dos catadores do lixão e a implantação da coleta seletiva. “A UEPB tem ajudado muito os catadores. O apoio tem sido muito importante em todos os sentidos”, diz a presidente, que está na entidade desde a sua fundação. Maria de Lourdes frisa que o trabalho feito nas ruas é muito diferente do realizado no passado, no lixão, onde os riscos de acidentes e de contrair doenças eram iminentes.

Distribuídos por zonas, os catadores percorrem mais de 80 ruas por semana em bairros como Santa Rosa, Catolé, Prata, Alto Branco, São José, Santo Antônio, Centro, Liberdade, Malvinas e Quarenta, recolhendo o material reciclável. Por mês, eles chegam a recolher até 10 toneladas de recicláveis. Para facilitar ainda mais o trabalho dos catadores, em financiamentos anteriores captados por editais do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), foram adquiridos três carros elétricos, dez carrinhos de tração humana, três containers, uma balança, uma prensa e equipamentos de proteção individual. As caixas coletoras, instaladas na Praça do Trabalho, no bairro do São José, no Parque da Criança e na Praça Coronel Antônio Pessoa facilitam o trabalho dos catadores.

Desde o seu início, o projeto já envolveu 18 extensionistas. Atualmente, três bolsistas da UEPB estão envolvidos no programa que conta, ainda, com a colaboração da professora Jussara Carneiro Costa e do professor Ricardo Ferreira Dantas. Integram a iniciativa as alunas extensionistas Maria Tatyane Ribeiro dos Santos, Franciany Vicente de Lima e Thalita Tenório de Sousa, todas do curso de Serviço Social.

Fazem parte do programa três subprojetos denominados “Da Invisibilidade à Garantia dos Direitos Socioassistenciais dos/as Catadores/as”; “Fortalecendo as ações da Catamais” e “Coleta Seletiva Solidária: Ampliação das oportunidades de renda dos catadores e catadoras da Catamais!”. O grande desafio do programa e da cooperativa no momento, conforme explicou a professora Idalina, é conquistar mais adeptos para a causa. Para isso, o grupo de alunos bolsistas tem acompanhado os catadores na rota da coleta, procurando esclarecer a população a respeito de facilitar a coleta seletiva. O trabalho de “formiguinha” visa conscientizar a população da importância de fazer a separação dos resíduos.

Durante alguns dias da semana, as estudantes bolsistas acompanham os catadores com o desafio de alistar mais pessoas no “exército da cidadania”. Elas entregam um adesivo, um ímã e um folder com explicações sobre o processo da coleta seletiva. As estudantes também buscam a adesão de bares, restaurantes, empresas, condomínios residenciais e outros estabelecimentos públicos. A parte educativa é um dos eixos motores do projeto. Os catadores receberam formação em diversos temas, destacando-se entre eles o cooperativismo e a gestão administrativa e contábil.

Além das formações com os cooperados, já foram realizadas oficinas e sensibilização da comunidade em geral para a coleta seletiva, estimulando a separação de materiais e o depósito nos pontos de acondicionamento. O programa serve de exemplo sobre como se pode mudar a realidade e ajudar o meio ambiente. Os principais êxitos, conforme descreveu a professora Idalina, foram a retirada dos catadores do lixão, a constituição de experiências de coleta seletiva organizada no município e a abertura de campo de estágio curricular supervisionado em Serviço Social para alunos da UEPB.

Além de sensibilizar as pessoas para a importância do trabalho dos catadores, um dos desafios do projeto agora é assegurar de vez a transferência da sede da Catamais para o galpão próprio, instalado no bairro do Velame. O galpão é um espaço onde os catadores poderão desenvolver suas atividades de separação e armazenamento dos recicláveis coletados. O espaço, fruto de uma articulação dos catadores da cooperativa com o apoio do Núcleo de Tecnologias Sociais da UEPB e do Centro de Ação Cultural (Centrac) com o Governo do Estado da Paraíba, por meio da Companhia de Desenvolvimento da Paraíba (Cinep) e da Secretaria de Estado da Mulher e da Diversidade Humana (SEMDH), precisa ser estruturado para garantir a plena realização do trabalho com segurança e dignidade.

Embora tenha ganhado força a partir do projeto coordenado pela professora Idalina, a coleta seletiva em Campina Grande começou a surgir em 2007, quando um grupo de professores do Departamento de Serviço Social da UEPB, coordenado pela professora Jussara Carneiro Costa, passou a desenvolver um projeto de extensão com catadores de lixo da cidade. A parceria do projeto com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico (CNPq) durou dois anos e se chamava “Transformar para incluir”. Foi a célula de um projeto que cresceu e atingiu novos objetivos.

Professora Idalina Santiago ressalta que a coletiva seletiva deveria ser uma política pública e não fruto de um projeto de extensão, conforme está previsto na Política Nacional de Resíduos Sólidos – Lei 12.305/2010. A ideia é que toda a coleta de resíduos seja feita através de um contrato celebrado entre todas as cooperativas e o poder público, implementando assim, efetivamente, uma gestão pública de resíduos sólidos. “O processo de autogestão e de organização da Catamais vem se fortalecendo cada dia mais. O trabalho que a cooperativa começou a desenvolver toma vulto. A Catamais hoje é reconhecida dentro de Campina, em várias outras cidades do Estado e até em nível nacional”, enfatiza.

UEPB

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