07 de dezembro de 2016 - 19:10

última hora
24/11/2016 às 15h00 • atualizado em 24/11/2016 às 15h53

Diretor de filme pornô é o vereador mais votado de grande Capital

lobao

A série de reportagens apresentando fenômenos eleitorais nas eleições municipais deste ano na região Nordeste realizada pelo blog do Magno Martins, de Pernambuco, em parceria com o Portal MaisPB, mostra, nesta quinta-feira (24), alagoana para Anivaldo Luiz da Silva, ou simplesmente Lobão, 39 anos, produtor de filmes pornôs e vocalista de uma banda que anima as noitadas em bairros periféricos sem cobrar cachê, que foi eleito o vereador mais votado de Maceió (AL)  com 24.969 votos.

Cineasta pornô: avalanche de votos

MACEIÓ – A junção do estilo roqueiro, sem abrir mão dos longos cabelos e roupas extravagantes, com a fama de produtor de filmes pornôs e vocalista de uma banda que anima as noitadas em bairros periféricos sem cobrar cachê, deu certo na política alagoana para Anivaldo Luiz da Silva, ou simplesmente Lobão, 39 anos. Abertas as urnas nas eleições municipais deste ano, ele arrebentou a boca do balão de votos: 24.969. Foi o vereador mais votado de Maceió, a charmosa capital alagoana.

Lobão conseguiu ultrapassar a última votação da vereadora e ex-senadora Heloísa Helena em 2012, em torno dos 20 mil votos. “Precisamos trabalhar para Maceió avançar, para o Brasil avançar, sem maracutaias, sem corrupção”, eis o grito de guerra do parlamentar mais votado da história para a Câmara Municipal de Maceió.  Ele bateu estruturas poderosas, quebrou preconceitos e mostrou que política também pode ser feita com arte, bom humor e muitas noitadas cantando e dançando para oferecer lazer a quem não tem dinheiro para badaladas em boates sofisticadas.

Em dez anos, Lobão ganhou fama de louco e extravagante por explorar o sexo em filmes eróticos. Eram cópias bem amadores, produzidas e dirigidas por ele próprio tendo como cenários motéis populares da periferia de Maceió. A comercialização também chegava ao mercado tendo ele como principal vendedor ambulante em feiras livres da cidade. “O pornô foi um instalo que me deu quando estava liso. Percebi que só numa avenida aqui próximo de minha casa havia oito locadoras. Achei que ali estava se abrindo o meu filão”, conta.

Mas as locadoras, vistas a princípio como grandes consumidoras para ele, não se interessaram pelos seus filmes extravagantes.  Teve que procurar o público consumidor como vendedor ambulante. “Nas ruas, botei uma placa em minha bicicleta “Aqui se vende filmes pornôs alagoanos” e faturei uma boa grana que me tirou do atoleiro. Não fiquei rico, mas ganhei um bom trocado”, lembra.

Dois filmes entre os doze que produziu caíram nas graças do povo – “Pânico nas xoxotinhas alagoanas (2004)”, voltado para o grupo heterossexual, e “O senhor dos anéis, a saga do anel alagoano”, destinado ao grupo gay. Quem não gostou de saber que em Alagoas havia um artista usando seu nome foi o cantor carioca Lobão. O advogado do roqueiro dos anos 80 enviou uma carta pedindo que o artista alagoano não utilizasse a marca.

“Esse problema de fato aconteceu, mas não vi confusão nenhuma nisso, ele está certo, agora sou só Lobo”, explicou o alagoano Anivaldo Luiz da Silva. Apesar do diálogo extrajudicial, o nome utilizado nos pleitos foi Lobão. “A restrição que foi imposta a mim é exclusivamente artística, não política”, ressalta. O apelido veio quando Silva ainda era adolescente, havia deixado o cabelo crescer e fisicamente estava muito parecido com o músico carioca. “Eu não gostava que me chamassem assim, mas isso só piorou a situação, o apelido pegou e desde então fiquei Lobão”, contou.

E na política, usou Lobão e não Lobo, como prometera. Mas para ganhar mais fama, ainda, Lobão precisava inovar mais no campo artístico. Foi quando descobriu sua vocação de cantor, criou a banda Cheiro de Calcinha e invadiu as noites alagoanas com um estilo musical próprio: um rock-brega de duplo sentido. “Já que eu vinha do mundo pornô a música tinha que ter algo associado à sexualidade”, diz.

Anivaldo nasceu em Maceió e cresceu no bairro da Levada, área central da cidade. Garoto pobre teve que ajudar o pai vendendo picolé e amendoim pelas ruas da capital alagoana.  Desde muito cedo viu de perto as mazelas a que população estava exposta e começou a trilhar o caminho rumo à representação da sociedade. Ele teve seu primeiro contato com a política em 2004, quando se filiou ao Partido Socialista Brasileiro (PSB).

“Através de um grande amigo meu, que me apresentou a juventude do PSB, surgiu um interesse ainda maior da minha parte, senti uma necessidade de fazer parte da luta e acabei me filiando”, disse.  Sua primeira candidatura ocorreu seis anos após a filiação. Tentou uma vaga para deputado na Assembleia Legislativa, em 2010, aos 33 anos. “Não tinha muito dinheiro para a campanha, no total foram aproximadamente R$ 1 mil, recebi pequenas doações de várias pessoas, mas a maior foi da Katia Born (PSB)”, relatou.

Com propaganda de baixo custo e muito trabalho, ele teve uma votação considerável para os padrões eleitorais alagoanos – 2.115 votos. Já em sua segunda eleição, para vereador, em 2012, o capital para investir em propaganda aumentou, recebeu doações melhores e maiores. Durante o período eleitoral conseguiu fazer caminhadas e propagar suas ideias de uma forma ainda mais ampla. O dinheiro girou em torno de R$ 7 mil e R$ 9 mil.

Por pouco não foi eleito. Teve 3.759 votos, ficando a frente de outros dois candidatos que conseguiram entrar para a Câmara. “Dessa vez não consegui, mas não é motivo para deixar a luta pela população de lado. Sou segundo suplente da minha coligação e mesmo assim me sinto eleito”, dizia, para conformar e animar sua militância.

Os bens declarados foram os mesmos nas duas campanhas, sua inseparável mobilete vermelha e uma casa no bairro do Bom Parto. Ao passar dos anos, Lobão vem acumulando algumas bandeiras de luta, entre elas os mercados e feiras livres, que de acordo com ele precisam de grandes melhorias. Também vem reivindicando banheiros iguais ao do shopping no centro de Maceió. Seu argumento é de que ambos são junções de lojas e precisam de um ambiente estruturado.

Para o artista, todas as solicitações devem ser feitas através de abaixo assinado e atualmente ele vem recolhendo assinaturas para a organização dos pontos de ônibus da Rua do Comércio, no centro da cidade. Em campanhas de baixo custo, possivelmente a alcateia alagoana tenha ganhado um novo líder que não se preocupa em estar sentado em cadeiras de um plenário, mas em representar a população da melhor forma possível: vivenciando os problemas.

Lobão foi eleito para o primeiro mandato dele. “A gente pautou nossa campanha em mostrar um programa. A população entendeu isso e respondeu isso respaldado no que já foi feito sem mandato. Agora é manter o pé no chão e focar em realizar o que apresentamos e seguir trabalhando”, disse.