05 de dezembro de 2016 - 15:36

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18/11/2016 às 11h49

Ex-presidente de empreiteira recua e nega propina para a chapa Dilma-Temer

Otávio Azevedo, ex-presidente da Andrade Gutierrez - Laura Marques / 14-05-13 / Agência O Globo Otávio Azevedo, ex-presidente da Andrade Gutierrez – Laura Marques / 14-05-13 / Agência O Globo

O executivo Otávio Marques de Azevedo, ex-presidente da Andrade Gutierrez, mudou a versão de que teria doado R$ 1 milhão oriundo de propina para a campanha de 2014 da ex-presidente Dilma Rousseff, em depoimento prestado nesta quinta-feira. Ele foi chamado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a se explicar após a defesa de Dilma apresentar documentos atestando que a doação, na verdade, foi feita ao hoje presidente Michel Temer.

O novo depoimento foi dado ao ministro Herman Benjamin, relator do processo que apura irregularidades nas contas de campanha da chapa Dilma-Temer. Segundo os advogados que participaram da sessão, Azevedo disse que não houve doação com dinheiro ilícito para a chapa Dilma-Temer nas últimas eleições. Nem para os candidatos separadamente ou seus partidos, que teriam recebido apenas recursos legais.

O recuo enfraquece a acusação, feita pelo PSDB e apurada pelo TSE, de que a campanha presidencial vencedora se valeu de recursos desviados da Petrobras — o que poderia levar à cassação de Temer.

Flávio Caetano, advogado da campanha de Dilma Rousseff à reeleição, disse que, com a “retratação” de Azevedo, “cai por terra” toda a acusação no TSE. Ele afirmou que o empreiteiro foi o único, de 25 testemunhos colhidos, que falou em irregularidades no sistema de arrecadação eleitoral.

— Hoje ele se retratou e retirou a acusação que tinha feito no seu depoimento anterior. Ele disse que teve acesso a documentos e verificou que o que havia dito no depoimento anterior estava completamente equivocado — afirmou.

Segundo Caetano, o empreiteiro retificou também o valor doado a Aécio Neves, do PSDB, candidato vencido nas eleições, de R$ 12,5 milhões para R$ 19 milhões. O advogado de Dilma afirmou que cabe ao Ministério Público avaliar se Azevedo cometeu falso testemunho.

O ex-dirigente da Andrade Gutierrez e seu advogado não quiseram dar declarações sobre o conteúdo do depoimento prestado. Interpelado pela imprensa na saída da sessão, Azevedo se limitou a dizer que “as coisas são como são e temos que caminhar olhando para frente”.

O advogado Gustavo Guedes, responsável pela defesa de Temer no processo do TSE, minimizou a mudança de versão do empreiteiro. Segundo ele, ficou esclarecido que o “equívoco” ocorreu em função de os recibos da campanha serem assinados pelo PT.

— Ficou esclarecido que toda confusão se deveu ao fato de que a arrecadação do vice-presidente, em que pese possa ser feita diretamente por ele na conta de campanha, os recibos eleitorais são emitidos pelo PT, assinados pelo Edinho (Silva, tesoureiro da campanha). O vice-presidente pode arrecadar, abre conta e arrecada, mas ele não tem condição de emitir recibo eleitoral. Daí então essa confusão. Me parece que esclareceu bem — disse Guedes.

José Eduardo Alckmin, advogado do PSDB, disse que, apesar do recuo do empreiteiro, é preciso investigar mais. Segundo ele, Azevedo narrou um encontro com Edinho e João Vaccari Neto (ex-tesoureiro do PT), em que foi dito “que o PT era abastecido com dinheiro desviado da Petrobras”. Embora no episódio mencionado o tema fosse recursos para o partido, e não para a campanha, que é o objeto da apuração do TSE, Alckmin defendeu que “dinheiro não tem carimbo” e que pode ter irrigado a chapa vencedora das últimas eleições.

Azevedo prestou depoimento por cerca de duas horas. Ele foi chamado pelo TSE novamente porque havia declarado, anteriormente, que a Andrade Gutierrez fez doação de R$ 1 milhão ao PT em março de 2014. O valor teria sido pago como parte de um acerto de propina de 1% dos contratos da empresa com o governo federal. Ainda segundo o delator da Lava Jato, como a doação foi feita fora do período eleitoral, esse dinheiro só teria sido transferido do partido para a campanha de Dilma em julho do mesmo ano.

No entanto, a defesa de Dilma apresentou ao tribunal um cheque atestando o repasse de R$ 1 milhão do Diretório Nacional do PMDB para “Eleição 2014 Michel Miguel Elias Temer Lulia vice-presidente” em julho de 2014. Na prestação de contas da campanha, não há qualquer outro registro de movimentação do mesmo valor nas contas do PT. Além do cheque, a defesa de Dilma também apresentou documentos da prestação de contas de campanha atestando que o PMDB recebeu R$ 1 milhão da Andrade Gutierrez. Há recibo da campanha com o valor e também comprovante de depósito em conta bancária do PMDB.

O cheque nominal para Temer derrubaria a tese do presidente, que pediu ao TSE que julgue em separado as contas apresentadas pela campanha eleitoral de 2014. Segundo o pedido do presidente, ainda em análise pelo tribunal, as provas que haviam surgido no processo são relacionadas a atos praticados pelo PT e até por Dilma, e não por ele ou pelo PMDB.

A ação que pede a cassação da Chapa Dilma-Temer foi ajuizada pelo PSDB em 2015. Após a derrota de Aécio Neves na eleição de 2014, os tucanos pediram a cassação da chapa com o argumento de que a campanha do PT/ PMDB teria sido financiada com dinheiro desviado do esquema de corrupção da Petrobras.
G1