04 de dezembro de 2016 - 23:20

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17/11/2016 às 06h12

Juiz: Garotinho é ‘prefeito de fato’ de Campos

Ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho Ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho

O juiz da 100ª Zona Eleitoral, Glaucenir Silva de Oliveira, citou da decisão da prisão preventiva que o ex-governador Anthony Garotinho, secretário de Governo em Campos, é o “prefeito de fato” no município. O magistrado afirma que Garotinho exerceu os cargos de prefeito da cidade, governador do Rio e deputado federal e, com isso, amealhou inúmeros contatos políticos que lhe garantiram notória hegemonia política local. Por essa razão, diz o magistrado, o ex-governador detém considerável e inafastável poder sobre pessoas e órgãos públicos.

“Não obstante toda ilicitude demonstrada pelo farto arcabouço probatório constante dos autos, é de se ressaltar que o réu é realmente uma figura política proeminente na gestão deste município, sendo considerado pelas autoridades do Legislativo e do Executivo municipal como o prefeito de fato, ocupando a cadeira de secretário do Governo enquanto sua esposa exerce o cargo de prefeita formal”, apontou o juiz na decisão em que determina a prisão de Garotinho.

Garotinho foi preso na manhã desta quarta-feira em seu apartamento no Flamengo, Zona Sul do Rio. Na superintendência da Polícia Federal, na Praça Mauá, onde prestou depoimento, ele passou mal e acabou sendo encaminhado ao hospital municipal Souza Aguiar, no Centro do Rio, no início da noite. Segundo a PF, após receber alta do hospital, o ex-governador será levado para o presídio Frederico Marques, unidade no Complexo de Bangu. A cadeia foi escolhida porque tem estrutura de atendimento médico suficiente para o quadro de desidratação que Garotinho apresentou.

O juiz afirma que o ex-governador usa desse poder para, cotidianamente, criticar e execrar todos os que, de alguma forma, se insurjam contra os seus comandos, incluindo autoridades políticas, policiais, membros do Ministério Público e do Judiciário.

Segundo o magistrado, a prisão preventiva (sem prazo) é uma medida extrema que serve para garantir a ordem pública, evitando que o ex-governador continue usando os meios de comunicação que domina em Campos para causar estado de temor e insegurança jurídica.

JUIZ VÊ INTIMIDAÇÃO

Glaucenir Silva de Oliveira diz ainda que, sempre que Garotinho tem seus interesses contrariados pela Justiça, tenta denegrir a imagem dos magistrados, imputando-lhes a pecha de suspeitos para julgar os processos. Sendo assim, conclui o magistrado, é evidente que o ex-governador exerce poder de intimidação sobre pessoas comuns.

Garotinho foi acusado de comandar esquema de corrupção eleitoral em Camposdos Goytacases, com o uso do cheque cidadão, benefício que prevê pagamento mensal à população de baixa renda. O ex-governador também foi acusado de coação de testemunhas. Garotinho é secretário de Governo de Campos, governado pela mulher dele, a ex-governadora Rosinha Garotinho.

Delegado responsável pelas investigações, Paulo Cassiano afirmou que Garotinho praticava “intimidação verbal”.

– Ele atrapalhava as investigações com coação a testemunhas, destruição de provas e tentativa de intimidação das pessoas na cidade de maneira geral, mediante a disseminação de um clima de terror. Sexo verbal não agradava ao Renato Russo, e intimidação verbal não me agrada, não faz meu estilo – disse, em referência à música “Eu sei”, da Legião Urbana.

Cassiano ressaltou que o critério técnico para a inclusão de beneficiários no cadastro do cheque-cidadão foi ignorado:

– Essas inclusões (no cadastro do cheque-cidadão) foram feitas pela via política. Candidatos a vereador receberam autorização para cada um, dentro de uma cota, estabelecida pelo senhor Anthony Garotinho, distribuir nos seus redutos eleitorais o cheque-cidadão. Com que objetivo? Ganhar votos, vencer as eleições e se perpetuar no poder.

O delegado disse ainda que as investigações não apontaram para a participação da prefeita de Campos, Rosinha Garotinho, mulher do ex-governador.

– Nenhuma informação nos conduziu à participação dela ou ao conhecimento dela. Todas as informações convergem para a figura do secretário de Governo (Garotinho).

A defesa do ex-governador nega as acusações e ingressou hoje com pedido de habeas corpus para que ele saia da prisão.

G1