João Pessoa, 22 de outubro de 2017 | --ºC / --ºC Dólar - Euro

ÚltimaHora
EM PROTESTO

SP: Jornalistas usarão tapa-olho contra decisão da Justiça

Comentários:
publicado em 11/09/2014 às 17h26

Em um   protesto pela decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), que culpou o fotógrafo Alexandro Wagner Oliveira da Silveira por ter ficado cego de um olho ao ser atingido por uma bala de borracha, disparada por um policial militar da Tropa de Choque, quando cobria uma manifestação, em 2000, os jornalistas de São Paulo podem ir um dia ao trabalho usando um tapa-olho. A data ainda será definida.

Em reunião na noite de quarta-feira, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP) e a Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Estado de São Paulo (ARFOC) lançaram a campanha "Somos Todos Piratas", em repúdio à decisão da Justiça. As entidades afirmaram que vão tentar reverter a decisão dos desembargadores Vicente de Abreu Amadei e Sérgio Godoy Rodrigues de Aguiar e do juiz Maurício Fiorito.

Alex Silveira não pôde participar da reunião por estar fazendo "um frilinha", mas enviou carta aos participantes, lida por outro repórter fotográfico agredido pela Tropa de Choque da PM, Sérgio Silva, que ficou cego de um olho durante as manifestações de junho de 2013. "Permanecendo este parecer ridículo, todos nós estaremos em um grande perigo de uma nova ditadura, mas agora velada de interesses mesquinhos e danosos, e dando para os agentes do estado um Salvo Conduto no qual o despreparo desses mesmos, certamente, causaram muitos danos, físicos, morais e constitucionais, mas isso tudo é muito óbvio", escreveuo fotógrafo.

O presidente do SJSP, José Augusto de Camargo, disse que o acórdão do TJ “lembra os piores anos da ditadura militar”. “É uma decisão que está a serviço do que existe de mais retrógrado na política brasileira, que é a proteção à violência praticada pelos agentes do Estado”, afirmou.

Em sua carta, Alexandre termina lembrando o perigo que a decisão do TJ traz para todos os profissionais do jornalismo: "no fim das contas entendi com tudo isso que essa decisão tem uma clara intenção de “colocarmos em nosso lugar “. Acredito que essa causa é maior que todos nós. Perdemos a nossa individualidade e nos tornamos um só Repórter, essa luta agora é de todos nós".

A decisão

No dia 18 de maio de 2000, Alexandre cobria um protesto do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial de São Paulo (Apoesp), na avenida Paulista, quando a Tropa de Choque da PM, sob o pretesto de desobistruir a via, usou bombas de gás e bala de borracha contra os manifestantes. O fotógrafo foi atingido por uma bala de borracha no olho esquerdo, perdendo a visão deste.

Ao negar pedido de indenização do fotógrafo, a ser pago pelo governo do Estado, o desembargador relator Vicente de Abreu Amadei afirmou na decisão: “permanecendo no local do tumulto, dele não se retirando ao tempo em que o conflito tomou proporções agressivas e de risco à integridade física, mantendo-se, então, no meio dele, nada obstante seu único escopo de reportagem fotográfica, o autor colocou-se em quadro no qual se pode afirmar ser dele a culpa exclusiva do lamentável episódio do qual foi vítima”.

Veja íntegra da carta de Alexandro Wagner Oliveira:

Carta aos companheiros!

Não é necessário dizer a vocês o quanto a posição tomada por esse Júri me afetou. Na prática, fiquei sem chão e me sentindo um lixo quando soube dessa notícia. Obviamente no primeiro momento foi um misto de indignação e auto piedade, coisa que quem me conhece direito sabe que passa logo, pois sou muito mais teimoso em tudo que faço.

Mas passado o susto da notícia, me veio o pior dos sentimentos, que foi o de me sentir literalmente “um boi de piranha” por tudo que vem acontecendo já há um tempo e com vários de nós. (Obviamente que estou citando a era pós-ditadura), na qual saímos pra trabalhar com convicção que somos abonados pela constituição e pelo direito de exercer nossa profissão livremente. E é isso que mais me preocupa e amedronta no momento.

Pois permanecendo este parecer ridículo, todos nós estaremos em um grande perigo de uma nova ditadura, mas agora velada de interesses mesquinhos e danosos, e dando para os agentes do estado um Salvo Conduto no qual o despreparo desses mesmos, certamente, causaram muitos danos, físicos, morais e constitucionais, mas isso tudo é muito óbvio.

Sobre essa decisão realmente não consegui encontrar outra forma de explicar tal absurdo: Sim eu estava lá no cumprimento de minha profissão, entendeu o Juiz. Sim, foi a polícia a responsável pelo tiro que me atingiu no rosto (bala de borracha) Mas julgou com isso que eu tenho culpa por ter me colocado na frente da bala rs (podem rir, isso realmente foi cômico). E deixou claro que eu deveria ter deixado o local assim que o confronto começou.

E o mais bizarro e perigoso “pra todos nós”: Ele entendeu que ao permanecer no local eu “assumi o risco” de ter tomado o tiro. Bem, não acho que seja necessário falar sobre isso aqui entre nós, mas, alguém aí cobre, seja lá o que for, sentado na redação?? Obviamente não! Enfim, no fim das contas entendi com tudo isso que essa decisão tem uma clara intenção de “colocarmos em nosso lugar “. Acredito que essa causa é maior que todos nós. Perdemos a nossa individualidade e nos tornamos um só Repórter, essa luta agora é de todos nós.

Terra

Leia Também